Opinião
A casa dos av�s
JOSÉ MEDEIROS * Transcorreu o Dia dos Avós, em 26 de julho, data pouco lembrada e modestamente comemorada. O papel dos avós vai bem mais além de presentes e carinhos. Eles são o suporte afetivo da família, unidade básica da estrutura social. Se os pais têm açúcar, os avós têm mel, e os bisavós ? hoje tão comuns ? têm creme de chocolate, se comparados às delícias gustativas de minha especial predileção. Outro dia, estava assistindo a uma entrevista na TV e vi uma jovem atriz brasileira falar que a casa de seus avós era tão boa, que considerava a Disneylândia de sua infância. Achei a declaração fascinante, pois acredito que seja algo mágico na vida de uma criança. Atualmente, mudou a idade para ser avós; muitos deles estão na faixa etária entre 40 e 45 anos. Costumo dizer: não são avós por idade e sim por merecimento. Já não são tradicionais quanto no passado, e, seus domicílios, quase sempre apartamentos, não dispõem de extensos quintais e quartos cheios de bugigangas; mas, mesmo assim, não perdem a magia secreta. Ainda sobrevivem encantos que não mudam: palavras vestidas de ternura, como se fossem a luz da alma a iluminar os gestos e carícias. Em seus lares, encontramos fragmentos (fotos, lembranças) da infância dos pais, trazendo o passado à realidade do presente. Boa parte das pessoas que conheço tem lembranças agradáveis da casa dos avós, o que certamente foi muito saudável para a estrutura psicológica de seu desenvolvimento. Recentes estudos da personalidade da criança, mostram que ela é, essencialmente, formada por volta dos quatro a seis anos. Todavia, as lembranças da infância de fases anteriores, deixam marcas indeléveis na sensibilidade infantil. A conhecida frase de que pai e mãe educam, enquanto avós deseducam é, por vezes, verdade indiscutível; que nem sempre corresponde aos modernos avós, que conhecendo bem seu papel, embora a dedicação e o sentimento sejam grandes, sabem estabelecer limites e restrições. Costuma-se dizer que a dor que mais dói nos pais é aquela que vem através da carne dos filhos; nos avós, converte-se em dor psicológica. Como avós, temos a oportunidade de reviver momentos perdidos, que a correria da vida tirou de nossos filhos, não permitindo uma necessária maior assistência, quando isso ocorreu. Ser avô ou avó é uma espécie de segunda chance que a vida nos oferece de convivermos intensamente com os filhos de nossos filhos. (*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.