Opinião
Pandora � brasileira
| Sérgio Costa * A julgar pelas desgraças jogadas sobre os nossos ombros, a história mitológica de Pandora poderia ser contada como se fosse coisa nossa. Vou tentar uma adaptação. Espero que os gregos não fiquem zangados! Contam os historiadores do Olimpo que o todo poderoso Júpiter arquitetou um plano sutil para subtrair os recursos naturais e as riquezas do nosso povo. Para tanto, usou Pero Vaz de Caminha como bode expiatório. Deu-lhe o poder da caneta e dotou-o de curiosidade incomum. Como sua missão consistia em escrever sobre a terra desejada, Caminha era obrigado a andar por todos os lugares a fim de conseguir o maior número possível de informações para subsidiar a sua narrativa. Pedro Álvares Cabral andava meio desconfiado com algumas atitudes inconvenientes do escriba, tanto que, ?pero sim pero não?, seguia-o às escondidas. Certo dia, ao entrar em uma de nossas grutas, o mensageiro jupteriano encontrou um grande baú fosforescente. Chegou até a ouvir uma cativante voz a lhe dizer: ?Abra o baú, Caminha, não espere a presença dos outros?. Tomado por sua bisbilhotice, ele levantou a enorme tampa. Porém, no lugar de ouro e diamantes que esperava ver, começaram a escapar os males da impunidade, da corrupção, dos privilégios, dos financiamentos eleitorais, das coligações partidárias, das emendas ao orçamento, das verbas secretas e do esquecimento, entre outros. Cabral, que vinha seguindo os seus rastros, conseguiu fechar o baú. Mas chegou atrasado. Com exceção da esperança, todas as doenças haviam escapado. Depois, horripilantes gargalhadas ecoaram em volta da enorme caverna. Era Júpiter se divertindo com o sucesso do seu ignóbil projeto. Soltos, seus terríveis prepostos se encarregariam de transferir para o Olimpo as riquezas das terras do pau-brasil. Não acredita, leitor? Por que será então que os poderes da democracia são tão frios com o povo? Por que o Executivo mantêm os privilégios e eterniza suas políticas assistencialistas? Por que as CPIs do Legislativo rendem-se ao corporativismo e ao ridículo esquecimento dos acusados? Por que o Judiciário vê os erros que todos vêem e diz que só atua quando provocado? Porque o povo, que ainda não aprendeu a usar a sua soberania para trancafiar os males no baú, se alia ao pior deles: a esperança. A esperança?! Sim, leitor, é ela que entorpece a nossa alma fazendo com que fiquemos esperando por soluções. Sabe de quem? Daqueles que estão contaminados. Júpiter deve estar rindo à toa! (*) É contador.