Opinião
Combust�vel para greves
| Antônio Xisto Mello * A Fipe divulgou que nos 13 anos do real a inflação chegou a 178,75%. Dos grupos de preços pesquisados, as maiores altas vinculam-se a transportes e educação, tendo vestuário subido 15,79% e alimentos 119,22%. Considerados os itens individuais, os mais elevados foram abacate (1.101%), telefone (744%), seguro (741%), camarão (598%), ônibus (449%) e ensino superior (357%). Desprezados o abacate e o camarão, que não interferem nos bolsos brasileiros; e o vestuário, que subiu razoavelmente, os demais números causaram baixa no instável orçamento da classe média. A pergunta é: que categorias profissionais obtiveram reajuste que repusesse perdas decorrentes da inflação da última década? A resposta: poucas. Esse fato é combustível para as atuais greves, que têm como sujeitos policiais, metroviários, aeroportuários, médicos, professores etc., os quais viram preços sendo reajustados e, como não vivem só de roupa e cesta básica, passaram à situação de não mais poder arcar com despesas outrora suportáveis. A insatisfação desses trabalhadores inflama-se ainda mais em decorrência da observação de que em certas categorias os próprios beneficiários dos reajustes decidem em quanto e quando seus ganhos serão elevados. E o pior é que os que têm o poder para reajustar as próprias remunerações são os que recebem valores elevados para a média paga no Brasil. Não se trata de pregar a queda das quantias pagas às autoridades dos poderes republicanos, mas de lutar para que, quando reajustados os subsídios de suas excelências, os demais trabalhadores também se beneficiem da mesma aritmética. Consideradas as proporções, esses experimentam do mesmo modo as elevações de preços dos combustíveis, tarifas públicas, alimentação, transporte e outros itens indispensáveis à formação do mínimo necessário à vida de uma família modesta, mas que também necessita de segurança quanto ao presente e ao futuro. A persistir a sistemática de tratar os do andar de cima da pirâmide de modo privilegiado, dando-lhes o direito a auto-reajustar suas remunerações, é certo que os profissionais dos estratos sociais de baixo cobrarão com greve as suas fatias no bolo nacional, que não é bem repartido desde a comparação econômico-culinária feita em 1970 por Delfim Neto. Com esse injusto critério de dois pesos e duas medidas, temporadas de paralisações como as que atualmente o País vivencia seguirão brotando em determinados momentos. Tal situação traz os lamentáveis desgastes cíclicos a que se submetem tanto os trabalhadores quanto a sociedade, que muito depende deles em setores cruciais. (*) é procurador federal