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| MARCOS DAVI MELO * Ingmar Bergman recentemente falecido, na primeira cena de O Sétimo Selo, introduz um personagem pálido como um cadáver, vestindo um manto preto de amplas mangas e com as mãos ocultas sob as suas dobras. Do encontro deste personagem com o cavaleiro surge um dos momentos mais inusitados da história do cinema. O cavaleiro pede que o personagem se identifique. Este responde que é a Morte. O cavaleiro pergunta se a Morte veio lhe buscar, esta responde que tem andado ao seu lado há muito tempo. Partem para uma partida de xadrez e, em seguida, o cavaleiro vai para uma igreja para se confessar. Lá, questiona o padre quanto à existência de Deus e quanto ao sentido da vida, dizendo que a vida é um horror absurdo e que ninguém pode viver com a morte diante de seus olhos e sabendo que tudo é coisa nenhuma. O cavaleiro questiona também o que fez na vida, e termina por alertá-lo que a Morte veio lhe visitou e que gostaria de ter mais uma chance na vida para cumprir algumas últimas tarefas e para poder tentar derrotar a morte. Seu confessor então mostra a sua face e não é outra que não a própria Morte. Ao contrário do cavaleiro de Bergman, os tripulantes e passageiros do Airbus da TAM não puderam antever com o mínimo vagar que iam morrer estupidamente. Assim não puderam fazer derradeiros planos, deixar pequenos recados ou concretizar mínimas despedidas. Os últimos momentos de horror que vivenciaram por breves e fugazes, divulgados na mídia, são demasiadamente angustiantes. Pessoalmente, toda a vez em que precisei descer em Congonhas, me senti como um piloto de jato, totalmente despreparado, mas que precisava pousar em um porta-aviões durante a noite e sob tempestade. Lembrando que Congonhas ao contrário de um porta-aviões, não têm aqueles ganchos que prendem os jatos e impedem que eles caiam no mar. O presidente Lula agora alega que não sabia nada da profundidade da crise aérea nacional. Vocifera que ela é como um câncer que toma conta do organismo sem o doente saber. Isto é possível na Medicina. O que não é aceitável é o médico desconhecer isto. Mesmo porque ele tem os protocolos de avaliação de seus pacientes e deve ser criterioso. Deve prevenir ou na pior das hipóteses, diagnosticar precocemente estas metástases. Senão, será massacrado e rotulado como incompetente ou negligente. No caso do gestor público, que também não sabia do mensalão e de outras mazelas nacionais, fica para cada um avaliar se houve apenas injustificável negligência ou absoluta incompetência. (*) É médico e professor da Uncisal.

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