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Declara��es ins�litas e desconcertantes

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| DOM FERNANDO IÓRIO * Quando, de uma das memoráveis sessões da Academia Brasileira de Letras, o acadêmico Austregésilo de Athayde, chamou a atenção de todos para uma notícia trazida à baila por um dos jornais do Rio de Janeiro, no tocante a certa entrevista dada pelo conhecido poeta argentino, Jorge Luis Borges, na qual declarava sempre repetir os versos ?minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá?, entretanto nunca conseguira saber quem era seu autor. Quando lhe disseram tratar-se de Gonçalves Dias, ele teria declarado nunca ter ouvido falar neste cidadão. É assustador um homem, nosso vizinho, intelectual, em comunhão constante com a vida literária dos povos latino-americanos ter feito semelhante declaração: não conhecer Gonçalves Dias, cujos versos recitava constantemente: ?Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá?. Esse fato, fez Austregésilo recordar um encontro que tivera, em Paris, com François Mauriac que lhe afirmara ? nunca ter ouvido falar num escritor brasileiro. Em resposta, o então presidente da Academia Brasileira de Letras lhe respondera: ?Mestre, o senhor perdeu muito, porque há, na literatura brasileira, escritores que podem sofrer um cotejo favorável com qualquer dos grandes literatos franceses, cada qual na sua época, cada qual em seu estilo... Nós temos uma literatura densa e bela que merece ser mais conhecida dos franceses, vez que nós conhecemos, profundamente, a literatura francesa?. É sempre assim: um caso evoca outro que lhe assemelha. E chegou a vez do imortal, Herberto Sales, pronunciar-se: ?Senhor presidente, sobre Jorge Luis Borges gostaria de dizer algumas palavras. Antes de mais nada, quero afirmar que, dificilmente, encontro alguém que conheça o escritor argentino mais do que eu. Ele é famoso por suas declarações insólitas e desconcertantes. Não tem feito outra coisa, ao longo de sua vida, o que tem atrapalhado, até hoje, na escolha para o Prêmio Nobel de Literatura. Sua obra é extraordinária. Devemos, continua o imortal, dar graças a Deus por ele conhecer os dois versos de Gonçalves Dias, muito embora não conheça o autor, o poeta de nossa adolescência. Ultimamente, quando o poeta Saul Bellow foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura e seu nome foi apresentado a Borges, a resposta do poeta argentino foi simplesmente esta: ?Nunca ouvi falar neste rapaz?. Então, se nunca ouvira falar de um escritor americano, internacionalmente conhecido, de logo lhe descobrimos a maldade e desconcertante ironia. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.

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