Opinião
O fator coer�ncia
| Ronald Mendonça * A aparente sofreguidão com que foi feita a transferência dos atletas cubanos para seu País insular tem sido um dos temas mais recorrentes de comentários entre os nobres senadores brasileiros. Acompanhar sessões parlamentares sempre considerei tarefa para estóicos desocupados. Contudo, esta semana, vi-me na situação de optar por este passatempo enquanto me recuperava de um problema na saúde. Depois de três fins de tarde ouvindo discursos do piauiense Heráclito Fortes e as intervenções melosas do conterrâneo Mão Santa, posso garantir aos leitores que é um dos meios mais eficientes para quem quer sair ligeiro da cama. Baixa a febre, desopila o fígado e melhora a respiração. O nobre Heráclito Fortes não é um mau tribuno. Sua figura ganha contornos sui generis pela papada obscena e a boca eternamente cheia, o que torna sua fala solene e risível. Quando se referiu ao repatriamento de Guilhermo Rigondeaux e Erislandy Lara, os trânsfugas, não foi para elogiar o papel da diplomacia brasileira. Fortes foi mais longe. Relembrou os inúteis apelos da sociedade em prol da ex-terrorista alemã Olga Benário, que, grávida de Carlos Prestes, foi impiedosamente mandada de volta à Alemanha para os braços e fornos do fascismo hitleriano. Do desagradável incidente dos cubanos, uma coisa é certa: Fidel Castro continua o mesmo. Coerente, não arreda o pé do controle férreo do Estado sobre o cidadão. As promessas de não punição dos atletas devem ser interpretadas como gracejos de ditador. Outro assunto recorrente nas sessões do senado é o inferno zodiacal do senador Renan Calheiros. Alvo de investigações a partir das denúncias da revista Veja, Calheiros vem comendo o pão que o diabo amassou. Subtraído publicamente o apoio de Lula ao senador alagoano, o futuro de Renan tornou-se ainda mais sombrio. Os próprios colegas, através de atos falhos sucessivos, vem pedindo seu afastamento ? não só da presidência da casa. Ainda pouco provável, com a eventual perda do mandato de Calheiros, deve assumir o segundo suplente, o médico José Wanderley Neto. A ascensão de Wanderley pode soar estranha. É que depois de uma entrevista num jornal local, o primeiro suplente de Renan, o advogado José Costa, confessou ser visceralmente contrário à figura do suplente, dentre outros pelo irrefutável argumento de que suplente não tem votos. Conhecendo o passado heróico e coerente de José Costa, certamente ele se negará a assumir. (*) É médico e professor da Ufal.