Opinião
Profeta vidigal
| Humberto de Barros * Na época em que presidia o Superior Tribunal de Justiça, o ministro Edson Vidigal tentou mediar tratativas com escopo de evitar a falência da Varig ? verdadeiro orgulho nacional. Seu esforço fracassou: a Varig desapareceu; seu complexo empresarial foi retalhado. Ficou-nos o gosto amargo do orgulho vilipendiado. De tudo restou aguda e dolorosa observação, cunhada por Vidigal: a de que o Brasil destruiu nossos transportes aquaviários, ferroviários e rodoviários. Agora ? concluiu Vidigal ? tratamos de exterminar o excelente transporte aéreo que tanto nos envaidecia. A constatação de Vidigal lembrou-me a adolescência, em Maceió. Naquela época, havia, sempre, um Ita (Itanagé, Itaquicé, etc.) atracado no porto. Nesses pequeninos navios, gastava-se uma noite para chegar ao Recife (metrópole de nossa região). Quem temia o mar, tomava o trem da Great Western, para divertida viagem de aproximadamente onze horas, até a capital pernambucana. Ninguém usava o automóvel em tal viagem: as estradas eram precaríssimas. O Estado de Alagoas dispunha de apenas quatorze quilômetros de rodovia asfaltada (a estreita pista que ligava a Praça Centenária ao campo de aviação). Quem tinha pressa e dinheiro, viajava de avião. Os DC?3 faziam o percurso em quarenta e cinco minutos de vagaroso, barulhento e trepidante e vôo. Quem se animava ao uso do avião dispunha de vários horários, ao longo do dia. Tinha, mesmo, o direito de escolher a empresa transportadora (Real, Aerovias, Cruzeiro, Panair, Loyde Aéreo e algumas outras). Depois, veio a estrada de rodagem. Ela acabou, primeiro com os Itas; depois, com o trem. Hoje, trem e navio só existem nas canções de Caimy, nos versos de Ascenso ou na saudade de quem os utilizou. Restaram os automóveis, ônibus e aviões. Asfalto pra todo lado, ninguém lamentou o passamento dos velhos transportes. Nossa atitude para com eles transpareceu imenso ressentimento: arrancamos os velhos trilhos; assoreamos rios e portos; transformamos em ferro velho, navios, vagões e locomotivas. Aparentemente, tínhamos razões para tanto. A viagem de Maceió a Recife reduziu-se a quatro horas, em estradas pavimentadas ? muito melhores do que as então precárias carreteras espanholas. Pelo tempo de jornada entre essas duas cidades diminuiu ainda mais: os modernos aviões reduziram-no a exíguos quinze minutos. Bem por isso, nossa despedida à hidrovia e à ferrovia efetivou-se na base do ?já vai tarde!?. Livres dos veículos ronceiros, sentíamo-nos no melhor dos mundos. (*) É ministro do STJ.