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Opinião

Os sem-banheiro

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| JORGE BRISENO * Você, meu caro leitor, já deve ter sido entrevistado pelo recenseador do IBGE. E, como você, eu e milhões de brasileiros, respondemos aos questionários. Os dados obtidos pelos censos são um ferramental importantíssimo para compreender este imenso País e planejá-lo melhor. Sempre que o IBGE divulga o cipoal de dados coletados nas entrevistas, um deles me intriga bastante: o número de residências brasileiras ainda sem banheiro. Sim, é isto mesmo o que você leu; casas que não possuem banheiro! Acompanho esse índice há muito tempo. No distante ano de 1990, cerca de 8 milhões dos quase 35 milhões de domicílios existentes no País não possuíam instalações sanitárias. Já no censo demográfico realizado em 2000, ainda possuíamos mais de 15,2 milhões de brasileiros ? dos quais 11,5 milhões nordestinos ? sem o espaço adequado para os banhos, alívios matutinos e demais necessidades básicas. Em Alagoas, tínhamos exatos 569.175 alagoanos residindo em 120.108 casas sem banheiros ou sanitários. O resultado desses números é um dramático retrato das condições de vida extremas a que foi relegada boa parte da população brasileira. Mais do que uma simples comodidade, o banheiro é uma questão de saúde pública e de cidadania. É impossível tornar-se um cidadão ou cidadã sem um banheiro. Mesmo não sendo sinônimo de condições ideais de saneamento, a existência de banheiros nos domicílios indica um padrão mínimo de higiene, do qual, infelizmente, milhões de brasileiros estão privados. São brasileiros obrigados a defecar em sacos plásticos, nos campos, nas matas, no interior de galerias ou nas valetas à beira das estradas. A ausência do banheiro torna-se ainda mais cruel pela discriminação que impõe às mulheres, visto que, mais que os homens, elas sofrem e passam por maiores constrangimentos com a falta de privacidade da não existência de um banheiro na residência onde mora. Portanto, meu caro leitor, se um recenseador lhe perguntar se você possui em sua casa um banheiro, agradeça ao céu se você puder responder que sim. Que possui um amplo, confortável e arejado banheiro! E, lembre-se que, se o seu banheiro estiver conectado a uma rede coletora de esgoto que direciona suas águas servidas até uma estação de tratamento de esgotos, você estará entre os eleitos, entre os privilegiados, pois, apenas 10% dos esgotos coletados neste País recebem tratamento. (*) É engenheiro e diretor de Operação da Casal.

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