Opinião
O jovem brasileiro e o mercado de trabalho
| Benedito Ramos * Manchete de um diário da maior cidade brasileira, no dia 5 de agosto: ?Mãe entrega filho de 14 anos suspeito de furto à polícia no RS?. Desempregada, ela levou o filho a um posto policial e o entregou, com todos os bens furtados. ?Eu e meu marido estamos desempregados, mas não admito que meus filhos roubem. Que exemplo dará para os irmãos?? Foi o que disse. O Brasil que hoje se apresenta com uma economia estável, ainda é o mesmo que precisa de estratégias para conviver com a estabilidade da moeda, consoante ao mercado exportador. É o mesmo que precisa, a cada dia, especializar sua de mão obra direcionando-a a setores da economia que não pareciam despertos. O jovem, sobretudo os advindos de escolas públicas, sequer vislumbra este Brasil cujo futuro exige bem mais do que a qualificação profissional. Entre ele e esta sociedade de consumo, existe uma barreira imensa dominada pela classe média ascendente cuja prole freqüenta as melhores escolas, faculdades e os melhores cursos das universidades. E mesmo para aqueles que o sistema de cotas lhes garantem o ingresso às universidades, não há como competir com a mesma qualificação no mercado de trabalho que exige algo além de um currículo acadêmico. Considere-se que hoje o aluno graduado, mal recebe o diploma e está avaro por um curso de pós-graduação, tamanha é a exigência do mercado de trabalho. O Estado de Alagoas representado por um dos mais baixos IDH 6,49 (o 27º no ranking PNUD/2000) é refém de uma política educacional que negligenciou a escola pública durante anos. O resultado desta indiferença é a falta de qualificação básica para preenchimento de vagas nos setores de serviço, indústria e comércio, assim como despreparo para empreender negócios, uma alternativa vital para a geração de emprego e renda. Por outro lado o custo dos cursos de capacitação e profissionalização exclui jovens oriundos de famílias de baixa renda. O custo de passagens de ônibus, a distância dos bairros, tudo concorre para o crescimento da marginalidade e da violência. E é, sem dúvida alguma, a desocupação e a falta de recursos para o atendimento básico (alimentação e vestuário) dos membros da família, que concorre para buscar alternativas escusas e impróprias à sociedade, como uso e venda de drogas e participação em crimes de latrocínio. Permitir o acesso de qualquer cidadão ao mercado de trabalho é um dever constitucional que passa, seguramente, pela ação da sociedade civil organizada. (*) É escritor ([email protected]).