Opinião
Newman e a eucaristia
| Dom Edvaldo G. Amaral * O pastor anglicano John Henry Newman nasceu na Inglaterra em 1801 e morreu em 1890, como cardeal da Santa Igreja. Seu livro de memórias teve por título Defesa de sua vida. A data era 26 de maio de 1864, festa de Corpus Christi. Com essa data, ele queria significar que sua caminhada espiritual, do cisma anglicano à comunhão católica, deu-se à luz da eucaristia, em feliz visão de paz, em que descobrira sempre melhor a verdade e da qual emergiam a Igreja e a eucaristia. É a confirmação na vida concreta de um cristão bem intencionado daquele princípio teológico, lembrado por João Paulo II em sua última encíclica: ?A Igreja faz a eucaristia e a eucaristia faz a Igreja?. Constituído pastor em 1824 da paróquia universitária de Oxford, onde era professor, começou aí sua devoção eucarística, restaurando a celebração diária e a recitação do Ofício Divino de Matinas e Laudes, conforme a tradição anglicana. Em 1845, foi recebido afinal no seio da Igreja de Pedro e, cheio de fé, pôde escrever ao seu amigo Henry Wilderforce: ?Estou te escrevendo do meu quarto pegado à capela. É uma felicidade tão incompreensível ter em casa a presença corpórea de Cristo!? Newman vivia na presença de Deus, quando foi ordenado sacerdote católico em Roma, a 30 de maio de 1847. Daí em diante, cresceu sempre mais seu fervor eucarístico e na santa missa, santamente celebrada, encontrava cada dia o centro de sua vida, a certeza e a felicidade suprema. Quero aqui reproduzir este seu texto, tão pessoal, do L?Osservatore Romano: ?Quanto a mim, nada que me console, que me surpreenda mais do que a missa, como é rezada entre nós. Poderia assistir à missa por toda a eternidade e nunca me cansaria. Não são somente palavras; é uma grande ação, a maior ação que se possa realizar sobre a terra. Não é apenas uma invocação mas, se posso usar esta palavra, é a evocação do Eterno. Ele faz-se presente sobre o altar na sua carne e no seu sangue. Este majestoso evento constitui o fim e a interpretação de cada um das partes deste solene sacrifício. As palavras são necessárias, mas como meio, não como fim. Elas não se dirigem só ao trono da graça mas são os instrumentos do que está ainda mais acima, da consagração do sacrifício?. Rezava com ardor eucarístico: ?Senhor, embora tenhas deixado o mundo, tu te ofereces todos os dias no sacrifício da missa e eu te ofereço a mim mesmo, em sacrifício de ação de graças a Ti.Tu morreste por mim, e eu entrego-me nas tuas mãos?. Sua última missa foi no Natal de 1889. (*) É arcebispo emérito de Maceió.