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Opinião

Mortos e vivos

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| Marcos Davi Melo * Como convivo permanente com pacientes vitimados por alguma forma de câncer agressiva, diagnosticada em uma fase avançada da enfermidade, quando, apesar de todos os tratamentos efetuados, evoluem para o êxito letal, tenho que desmistificá-la, até por necessidade de melhor trabalhá-la junto aos familiares de meus pacientes mais graves. A revista Veja desta semana trouxe nas páginas amarelas uma entrevista sobre as dificuldades de se conviver com a morte e suas múltiplas facetas. Enquanto uns se preocupam com a malvada; no Congresso Nacional os parlamentares estão cada vez mais vivos: tentam aprovar nas caladas da noite um novo trem da alegria, beneficiando mais de 250 mil pessoas, sem maiores preocupações como o moribundo INSS. Também modificam a legislação eleitoral em benefício próprio, desprezando tentativa modesta de estabelecer um mínimo de compostura na política nacional, refreando o indecente troca-troca partidário. Lamente-se, mas não se estranhe, portanto, a notícia que circulou de um avião repleto de parlamentares que sofreu uma pane e ameaçou cair; logo a internet estava cheia de abomináveis mensagens macabras, lamentando que o avião não tivesse se espatifado no solo. Foi inspirado nas estripulias da política norte-americana que J.K. Galbraith afirmou que se morria muito mais de indigestão do que de fome nos EUA. Quem viu o filme A Lista de Schindler, recordará o emocionante final, quando os sobreviventes da carnificina nazista depositavam pequenas pedras em cima das lápides das vítimas do holocausto. É uma milenar tradição judaica que tem um duplo sentido. A cada visita ao cemitério as pedras são colocadas, tanto para se mostrar presente junto ao morto quanto impedir a sua saída de volta para o reino dos vivos. Já no Egito antigo, os faraós eram embalsamados e levavam com eles as esposas, servidores, riquezas e até mesmo concentrados de literatura erótica, inscrita nas paredes das pirâmides, para deleite do faraó em sua segunda vida. A aceitação da morte é uma dificuldade imensurável; não por outras razões, várias religiões e culturas homenageiam os antepassados dando-lhes os mesmos nomes aos descendentes. O objetivo maior é manter a vida naquela nova pessoa, vencer o tempo, de alguma forma suplantar, enganar a morte. Todavia, companheiro, a morte não é igual para todos; portanto, não se animem os que dão como morto um político que esteja hoje moribundo. (*) É médico e professor da Uncisal.

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