Opinião
De quem � o Pa�s?
| Marcos Davi Melo * Enquanto a greve dos médicos em Alagoas chegava ao fim, após 90 dias de intenso desgaste para médicos, autoridades e fartos prejuízos para a população; em Brasília, no Supremo, se processava a denúncia do procurador geral da República contra os cabeças do ?mensalão?. São dois acontecimentos que parecem muito distantes entre si, mas que no fundo são mazelas emblemáticas de um mesmo e antiético País. Em Brasília, no Supremo, enquanto o procurador geral denunciava que a turminha praticara crimes graves contra o erário e obrigava os ilustres ministros a uma jornada de três dias e os deixava com uma inusitada carga de trabalho; mais do que suficiente para decretarem mais um recesso restaurador, os advogados bradavam que os seus clientes ? Zé Dirceu, Sílvio Pereira, Delúbio Soares e Marcos Valério ? são uns anjinhos. Talvez os advogados estejam refletindo o cotidiano: em Goiás, Delúbio é convidado pelo governador do Estado para cerimônias públicas, onde tira fotografias com prefeitos e vereadores; em Minas, Valério é cortejado para eventos privados e públicos e Zé Dirceu continua sendo o ?consultor? mais requisitado do País. Estão todos muito bem: social e financeiramente. Enquanto isto, a greve dos médicos por salários um pouco menos miseráveis e por condições um pouco mais dignas de trabalho, denotava apenas uma das múltiplas faces do caos que é o SUS nacional. Hospitais quase falidos; profissionais mal remunerados; pacientes sendo atendidos em condições precaríssimas. Uma África. Nas tentativas de solucionar a greve, embora do lado do governo houvesse grande empenho e indiscutível esforço de autoridades, como o secretário de Gestão Adriano Soares, foi com a formação de uma comissão (que entre nós, geralmente é feita para enrolar o distinto público e não resolver nada ) e a chegada nesta para coordena-la do médico Júlio Bandeira, que a coisa começou a ser direcionada para uma solução prática. Júlio Bandeira é um médico sanitarista, com extensa e equilibrada experiência no movimento sindical; alguns o criticam por seu passado esquerdista, depois transformado em bicudo penoso. Ele, como muitos outros órfãos de Marx, apenas se renderam à realidade. Este é um País que aceita e até cultiva figuras como os Delúbios e Valérios e pouco reconhece os Julios e Adrianos. É uma pena que este seja um País que os médicos, que tanto trabalham, precisem fazer uma longa greve para ganhar mais 400 reais por mês. Não é a Belíndia, é a Beláfrica. (*) É médico e professor da Uncisal.