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Opinião

Nada est� fora do tempo

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| Dom Fernando Iório * A Sagrada Escritura jamais esqueceu o mistério do tempo. O texto sagrado mais conhecido é, fora de dúvida, um poema elaborado em torno do ano 180 a. C, pelo mestre da sabedoria, Eclesiastes. Na obra procura ele combinar, entre si, elementos da sabedoria judaica e grega. Encara Eclesiastes, com ceticismo, qualquer ideologização do sagrado. Talvez seja por isso que o autor agrada, até os dias de hoje, a gregos e troianos que duvidam, em sua maioria, de pronunciamentos por demais peremptórios sobre Deus e o ser humano. O homem ? assim julga o mestre da sabedoria ? não pode compreender o mistério da vida; sendo assim, só lhe resta aceitar tudo em sua vida como criado pelo poder incompreensível de Deus: assim sendo, não pode dispor do próprio futuro, consistindo sua tarefa em entender qualquer momento como independente da escolha humana, porque tudo depende do que o Criador dispõe: ?Tudo tem sua hora. / Para cada acontecimento sob o céu/ existe um tempo determinado:/ um tempo de nascer, outro de morrer / um tempo de plantar/ outro de colher... / um tempo de chorar, outro de rir / ...um tempo de calar / outro de falar...?. Seguem-se, no poema, 14 pares antitéticos descritos por Eclesiastes, em que mostra a entrega do ser humano à vontade divina e à aceitação do tempo como sendo ordenado por Deus. Entretanto, concordar com o tempo, não leva à resignação, senão à serenidade interna e à alegria de viver. Com efeito, quando aceito cada momento não me apego a ele: ao viver um momento feliz, sei que, de logo, vai haver um tempo de chorar. Bem sei: se amargo a tristeza, consola-me a esperança de que, em breve, estarei sorrindo. Na existência humana há dois pólos: amor e ódio, riso e choro, luto e alegria. Somente quando os aceito, vivo de acordo com a minha essência. O tema me convida a não me agarrar a nada, senão a Deus. Os 14 pares antitéticos do viver no tempo tornarão, se realizados, nossa vida feliz. O livro Eclesiastes considera o revezamento dos tempos como algo perfeito e salutar: ? ?Deus fez cada coisa no seu tempo, de modo perfeito. Além disso, colocou a eternidade dentro de tudo, sem que o ser humano pudesse reencontrar aquilo que o Criador fez, do princípio até o fim?. Devo, assim, renunciar a meus critérios, com os quais eu julgo o tempo, porque em cada tempo Deus coloca eternidade. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.

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