Opinião
A l�ngua portuguesa agredida a tecladas
| José Medeiros * Se o leitor é um assíduo freqüentador da internet, não estranhará as expressões utilizadas pelos internautas na linguagem virtual: ?qro flr c/ vc? (quero falar com você) ou ?haja Kbeça para tanta 9idade? (haja cabeça para tanta novidade). É assim, que boa parte dos adolescentes e jovens se comunicam através dos teclados dos computadores. Os populares serviços de troca de mensagens, como Orkut, MSN Messenger e mensagens de textos enviados por celulares, trouxeram à tona esse uso da escrita. Os que utilizam essas codificações alegam pressa, maneira rápida, econômica e ?eficiente? de se comunicar. Dúvidas são levantadas por muitos educadores. Não se sabe até que ponto isso pode prejudicar na aprendizagem da linguagem, vez que, além de abreviações indevidas, a pontuação e acentuação são prejudicadas e já aparecem nos ditados escolares. O professor David Crystal autor do livro ?A Linguagem e a internet?, não prevê futuro desastroso para a gramática por conta dessas abreviações utilizadas na rede de computadores. Lembra que a invenção do telefone provocou a mesma desconfiança dos estudiosos. Numa outra vertente, observa-se que muitas palavras inglesas e francesas foram gradualmente aportuguesadas e absorvidas pelo idioma. Ao dicionário do mestre Aurélio, em sua última edição, foram registrados mais de 450 mil verbetes, que demonstram a evolução da língua portuguesa. Dos trabalhos escolares, a linguagem virtual abreviada já chega aos vestibulares e há os que defendem a aceitação desse tipo de escrita. Como exemplo, transcrevo a opinião da professora Waleska Martins, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: ?Na forma culta poderá haver prejuízos, mas é necessário constatar que esse tipo de ocorrência na escrita desses jovens é decorrente da própria evolução tecnológica que está sendo usada e que tem uma linguagem própria. Não adianta a escola coibir, reprimir ou proibir o emprego, porque essa linguagem está presente na sociedade, em diferentes usos?. Para a maioria dos professores, entretanto, o ?internetês? é assinalado como erro nos vestibulares, por se tratar de outra linguagem. Pesquisadores que acompanham crianças de 5 a 11 anos ? observando a relação entre a linguagem virtual e aquela que é ensinada nas escolas ? apontam para o fato de que se nas escolas a linguagem virtual for permitida, no futuro elas não serão capazes de escrever cartas e outros textos, corretamente. O acesso das crianças a esse tipo de escrita acontece cada vez mais cedo. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.