Opinião
Primo pobre
| JORGE BRISENO * A revista Veja realizou uma ampla reportagem sobre as condições atuais do setor de infra-estrutura do País. Na matéria, a revista nos fornece informações sobre a situação atual dos setores de energia elétrica, rodovias, ferrovias, transporte aéreo e portos. Infelizmente, nossa infra-estrutura, quando comparada com a de outros países também integrantes do Terceiro Mundo, como México, Chile, Argentina, África do Sul e Índia, é inferior. Há uma clara percepção de que esse setor está paralisado devido a uma redução drástica de investimentos ao longo dos anos, o que, certamente vai impedir o crescimento do PIB brasileiro. Li a matéria de fio a pavio, e o que me causou espécie e estupor foi o fato de a revista, em toda a reportagem, não disponibilizar uma linha, uma palavra sequer, uma menção que fosse acerca da situação gravíssima do setor de saneamento básico no Brasil. Uma omissão imperdoável. Cristaliza-se em mim a idéia, cada vez mais clara, de que o setor de saneamento é, de fato, o primo pobre ? aquele que nunca é lembrado ? dos setores de infra-estrutura do País. Se os outros setores da infra-estrutura estão entrando em colapso como, por exemplo, o do transporte aéreo, o setor de saneamento básico já se encontra no breu há muito tempo. Os brasileiros contemplados com redes de esgoto e de água tratada em suas residências e que são atendidos por sistemas de coleta de lixo e de drenagem urbana podem considerar-se privilegiados diante da imensa legião de pessoas que residem neste País sem acesso a esses serviços. Os últimos números da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico informam que 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada e 93 milhões não são atendidos por sistemas coletores de esgoto ? serviço que ainda não chegou a 52% dos domicílios brasileiros. Temos ainda mais de 15 milhões de brasileiros residindo em áreas sem coleta de lixo, apenas 30% do lixo coletado é disposto em aterros sanitários e cerca de 22% dos municípios não possuem nenhuma estrutura de drenagem urbana. Para atingir a universalização do atendimento, apenas nos setores de água e esgoto, necessitaríamos investir, durante 20 anos, a quantia anual de R$ 9 bilhões. Entretanto, nem a metade deste valor é aplicada anualmente no setor. Se o apagão aéreo prejudica os brasileiros mais abastados, o apagão do saneamento básico tem endereço certo: os mais necessitados, já que 75% do déficit recaem sobre os 50% mais pobres deste País. (*) É engenheiro e diretor de operação da Casal.