Opinião
Pastoral dos sem-terra
Dom Edvaldo G. Amaral * De 11 a 16 do corrente mês, estive visitando a paróquia de Porto de Pedras, que compreende, além do município-sede, o vizinho São Miguel dos Milagres. A paróquia está confiada ao zelo e dedicação do padre Manoel Alves Barbosa, queridíssimo de seus paroquianos, como já aconteceu nas duas outras comunidades, onde o padre Manoel exerceu seu ministério. Com esta visita pastoral, a quarta que realizo àquela amada paróquia da zona norte de nosso Estado, encerrei o ciclo de visitas àquela zona pastoral, iniciado em 1986 e religiosamente cumprido a cada quinqüênio, como prescreve o Código. Nas outras zonas pastorais fiz até agora três visitas, sendo que na zona da capital este número é bem menor, pela falta de urgência e necessidade, que o pastor diocesano tem de visitar as paróquias da capital, que ele bem conhece pela proximidade e por freqüentes pequenas visitas nas festas. Fui tratado com muito amor e carinho pelo pároco e pelo bom povo daquelas comunidades e sou-lhes muito grato por tudo. A região, como é sabido, é das mais pobres de nosso Estado, com graves problemas so-ciais de desemprego, analfabetismo, falta de assistência de saúde e de terra para trabalhar. A Pastoral da Terra tem tido ali uma presença ativa e transformada. No sábado, 15, na parte da manhã, quando estava previsto um pequeno repouso de estafante atividade de uma visita, tive a feliz oportunidade de conhecer o Assentamento Jubileu 2000, que se encontra no município de São Miguel dos Milagres. É uma realização concreta e uma vitória do esforço, quase sempre incompreendido dos que lutam pela posse da terra em nosso País. Acompanhado pelo trabalho da nossa Pastoral da Terra, no dia 16 de janeiro de 2001, após anos e anos de luta e oposições, finalmente saiu a suspirada emissão de posse. Ali se assentaram pacificamente 39 famílias de trabalhadores sem-terra, com cerca de 170 pessoas. Hoje todos têm sua pequena residência, construída em alvenaria, com um terreno circundante, passível de desenvolvimento. Todos têm um pequeno lote de terra para trabalhar e uma esperança de um futuro melhor. Constatei com tristeza a falta de uma escola para as crianças estudarem as primeiras letras. Os jovens e adolescentes dos ensinos Fundamental e Médio precisam de um transporte escolar, que facilite seu percurso de 15 quilômetros para ir e voltar da mais próxima escola. É urgente também a criação de um posto de saúde para atender os casos mais simples e freqüentes. Num veículo da Pastoral da Terra, oferta de benfeitores canadenses, experimentei a péssima estrada, que exige heroísmo e acrobacia de piloto de Fórmula 1 para ser enfrentada com êxito. Os assentados estão ainda à espera dos créditos de apoio inicial para o plantio, prometidos pelo Incra, nosso órgão de colonização e reforma agrária, que em matéria de lentidão operacional ganha qualquer Copa do Mundo... Pela intermediação da liturgia da Igreja, implorei as bênçãos de Deus sobre as casas e suas famílias, os campos e trabalhos e toda aquela magnífica atividade da Pastoral pela paz no campo, pela justiça social e pela redenção de nosso trabalhador rural, que pude admirar naquele abençoado sábado, dia 15. (*) é arcebispo metropolitano de Maceió