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Opinião

Boneca de trapo

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| Ronald Mendonça * Alcunhado de o ?Julgamento do Século?, as últimas sessões do STF tiveram uma audiência nunca dantes registrada. Nada mais justo, uma vez que estava em jogo a denúncia do maior esquema de corrupção política de que já se teve notícia nesse País, sob o competente comando do ex-guerrilheiro de araque José Dirceu. Conforme o diagnóstico do Procurador Geral da República, a cúpula do Partido dos Trabalhadores deixou-se levar pelos sedutores cânticos das sereias enveredando pelas sendas da safadeza explícita. Tudo levava a crer que as sessões transmitidas ao vivo e em cores seriam uma ode ao estado de direito, qualquer que fosse o entendimento do colegiado. Havia, é claro, a expectativa de que sentimentos de gratidão de seis ministros ao governo Lula (por conta de suas nomeações) aflorassem pesando no resultado final. A coisa caminhava dentro do script até a divulgação de diálogo eletrônico entre os ministros Ricardo Lewandovsky e Carmen Lúcia onde predominava teor mexeriqueiro além de francamente preconceituoso. Lewandovsky voltaria à ribalta ao ser surpreendido em conversa telefônica sentindo-se ?com uma faca no pescoço? pela incômoda presença da mídia, abortando a idéia original, segundo o ministro, que seria pegar leve com Zé Dirceu. A despeito das intercorrências, foi um histórico acontecimento. Nunca se viu tanto advogado famoso (ganhando os tubos, segundo propala-se) em espaço físico tão pequeno, fazendo das tripas coração para aliviar a barra de gente espertíssima. Não obstante, a descrença na inocência dos indiciados era de tal ordem que um dos causídicos, deixando-se levar pelo entusiasmo, comemorou o fato de o cliente ter sido enquadrado ?apenas? como ?integrante de quadrilha?. Para quem gosta de variar emoções, esta semana esteve perfeita. Se não bastasse a liturgia das sessões do Supremo com aqueles senhores de vestes talares e de ar sorumbático, cercados da aura da infalibilidade, tivemos as pouco ortodoxas reuniões do Conselho de Ética do senado, na espinhosa missão de julgar o colega Renan Calheiros. Na quinta-feira, uma questão pontual virou tour de force: voto aberto ou fechado. Num dado momento, dois nobres senadores (Tarso Jereissati e Almeida Lima) elevaram a voz e baixaram o nível da discussão. Entre gritos de ?palhaçada? e ameaças de batidas de mesa, roubaria a cena uma inequívoca coreografia acompanhada pela fala reveladora: ?Calma, menina. Calma boneca?. (*) É médico e professor da UFAL.

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