Opinião
O ser humano: al�m do tempo e do espa�o
| Dom Fernando Iório * Nada se consegue de um salto. Tudo na vida é lento e progressivo. Mister se faz aceitar a lentidão evolutiva. Há passos, não saltos. Entretanto, o ser humano orante irá caminhando, passo a passo, não destruindo etapas, até a Transfiguração no Outro. O ser orante tende elevar-se para além da multiplicidade das coisas e dos acontecimentos. Fora de dúvida, tende a situar-se por sobre o tempo e o espaço, e, em certo sentido, acima da lei da contingência das situações e emergências cotidianas. Tudo porque está ancorado, de certa maneira, na substância absoluta e imutável do Senhor. Mesmo assim, o ser orante não escapa à temporalidade e às leis do espaço. Pela unidade profunda com Deus em que se delicia, percebe, entretanto, aquele vislumbre que coordena os instantes sucessivos que formam a corrente do tempo dentro da intemporalidade do Eterno. Dessa maneira, chega o orante a superar a angústia que não é senão o efeito das limitações do tempo e do espaço, ou melhor, da não aceitação desses limites. Reporto-me às atividades místicas de santa Tereza de Jesus e de São João da Cruz. Para o orante, o Deus, com quem dialoga, não está aqui neste momento. Ele é a Presença. Não está comigo. Ele é comigo, como se fosse eu mesmo. Ele é uma luz que penetra como fogo. Incendeia: não consome, mas consuma. O tempo tem de ter tempo para que cheguemos além do tempo, para contemplar o Absoluto. Vou até Assis e ouço o que me fala São Francisco: Deus me envolveu tanto que se tocasse mais um arpejo no violino da minha vida, eu teria morrido. Alegra-me quando leio Paulo VI dizendo, no encerramento do Vaticano II, ? ?É o ato mais alto e mais pleno do espírito?. A Igreja grega aponta-nos, através de seu maior teólogo ? Kazantzkis ? três altos privilégios dessa absorção em Deus: a onipotência sem poder, a embriaguês sem vinho e a vida sem fim. Todo aquele que desfruta de alguma experiência de Deus vive essas intuições em forma embrionária. Mas, quando se verifica o encontro em ?alta dosagem?, nascem novos mundos no recôndito do ser humano, novas energias, antes desconhecidas, vêm à tona, tendo como resultado exemplares humanos da maturidade de um Francisco de Assis, de uma Teresa de Calcutá, de uma Teresa de Jesus, de um São João da Cruz e de tantos anônimos. Inútil o que escrevi? Só porque você não entendeu? Fique sabendo: se você não experimentou essas inutilidades incompreensíveis, jamais chegará a gustar, ainda na terra, parafraseando Rolland Barthes, o ?plaisir de Dieu?. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios.