Opinião
Os significados do sil�ncio
| Rita Luiza de Percia Namé * Muitos já disseram: o silêncio é de ouro. Para o músico é a possibilidade do som acontecer. Sem o silêncio seria impossível reconhecermos melodias e ritmos que embalam, divertem, povoam nossa realidade e nosso imaginário, pois o silêncio protege o evento musical contra o ruído. E nos tempos atuais ele se torna valioso, pois o estamos perdendo para os sons industriais, trânsito, aparelhos eletrônicos, entre outros. Na música, tal qual na vida, o silêncio, também, pode ser um sinal de suspensão, algo que esperamos, algo pelo qual ansiamos e que irá acontecer. Culturalmente, seu significado é muito amplo. Se entendermos que a cultura, de acordo com Clifford Geertz, é um documento de atuação, uma maneira de um povo viver, o silêncio tem várias interpretações. O que significa, por exemplo, o silêncio em torno da ausência, este ano entre nós alagoanos, do Projeto Concerto aos Domingos que o Instituto Histórico de Alagoas deixou de realizar? Segundo a pianista Selma Britto, coordenadora do referido projeto, é antes de mais nada lamentável, pois é a única oportunidade que temos de apreciar a música erudita e de fazermos intercâmbio com grandes músicos. Um projeto financeiramente pequeno e, ao mesmo tempo, grandioso em seu significado cultural. Faz parte do projeto a presença da escola pública: a cada concerto uma escola comparecia com seus alunos. Nesses domingos, a casa sempre estava lotada, muitas vezes com cadeiras extras e o público esperando para entrar. Este mês de setembro completam nove meses da ausência do projeto entre nós. Esperei completar estes nove meses, tempo de uma gestação humana, para quebrar o meu silêncio. Como educadora musical, sinto-me na obrigação de levantar a poeira. Precisamos muito destes projetos que contemplam a música erudita em nosso Estado. A Universidade Federal de Alagoas, através do curso de Música, cumpre com seu papel de formadora de artistas e professores de música e realiza, de forma acadêmica, concertos e recitais no decorrer do ano letivo. Todos gratuitos e abertos à comunidade. O Concerto aos Domingos tem (tinha?) outra amplitude. Para os/as alunos/as e professores/as da Universidade é (era?) um convite para ouvirmos música de qualidade, de conhecermos músicos de outros Estados e trocarmos informações. Com certeza somos público com cadeira cativa. Para a comunidade é (era?) a oportunidade, quase única, de conhecer, de viver, de se emocionar com a música erudita. (*) É professora de Música da Ufal, doutora em Letras.