Opinião
Solidariedade inesquec�vel
| José Medeiros * Vou contar a história de um rapaz que terminou o curso médio no interior e viajou para a capital, a fim de ingressar num curso superior. Necessitava de um trabalho para sua subsistência. Na busca de um lugar para ficar, encontrou abrigo na pensão do padre Pinho. Um sacerdote humilde, que abrigava e protegia meninos de rua. Numa primeira conversa com o padre Pinho, o rapaz contou que necessitava de um emprego que lhe permitisse continuar os estudos; o padre foi enfático: ?Eu arranjo um emprego para você!? No dia seguinte, conseguiu uma nomeação para um setor do Estado. Na manhã seguinte, o candidato apresentou-se no setor indicado. Uma decepção. Deparou-se com um diretor mal-humorado, colérico e violento, que tratava os funcionários como se fossem escravos. No auge da juventude, o estudante agüentou o que pôde. Quando isso não foi mais possível, resolveu pedir demissão. Reuniu os colegas e comunicou sua decisão. Isadora, uma das mais antigas funcionárias da repartição, levantou-se revoltada: ?Não, absolutamente não! Vou agora falar com o chefe e você vai ser transferido para outra repartição?. Sem delongas, dirigiu-se ao gabinete do diretor. Todos ficaram na escuta: vozerio, palavras pronunciadas em voz alta, batidas na mesa, depois, silêncio total. Minutos após, voltava Isadora com uma decisão: ?Você vai ser transferido para a Escola Profissional Feminina?. Um prêmio caído do céu. Como secretário da escola, permaneceu até o final do curso de Medicina. Vez por outra, Isadora aparecia para saber como estava saindo-se seu protegido. Os anos passaram com rapidez. Já no 4º ano de Medicina, o rapaz recebeu um aviso de que sua protetora estava internada numa enfermaria da Santa Casa. Foi lá, e, ao vê-la, espantou-se: magra, pálida, chorando copiosamente. O acadêmico procurou o dr. Mafra, médico da enferma, para saber o diagnóstico de sua moléstia. A resposta foi arrasadora: câncer de mama, com metástases já disseminadas em várias regiões do corpo. Seguiu-se uma agonia lenta e dolorosa. Quando Isadora faleceu, ele estava ao seu lado. Perdera uma mãe espiritual, amiga e protetora. No velório, uma das filhas de Isadora chorava abraçada com o acadêmico, muito seu amigo. Um desconhecido aproximou-se e perguntou: ?Você é o marido dela?? Antes que o rapaz respondesse, o marido tomou a palavra: ?Não, o marido sou eu, mas ela gostava desse rapaz como se fosse um filho?. E acrescentou: ?Lá na eternidade ela vai continuar a protegê-lo?. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.