Opinião
Os limites ultrapassados
| Marcos Davi Melo * Pelas ruas os esgotos corriam a céu aberto. Mesmo as famílias mais abastadas, em suas residências senhoriais, faziam as suas necessidades em vasos de porcelana, que ao anoitecer eram coletadas em imensos barris e levadas pelos escravos em sinistra procissão em direção às bandas do mar revolto do Sobral, onde eram despejadas. Lavados os barris, voltavam para mais um dia de coleta dos dejetos. As condições de saúde e higiene em Maceió nos anos 1850 eram as mais precárias possíveis. A população era na maioria constituída por escravos, trabalhadores assalariados pobres e pessoas muito carentes. Era impossível para esta massa paupérrima, quando adoentada ? e as doenças campeavam neste ambiente insalubre ? conseguir um atendimento médico. Como os esculápios eram pouquíssimos, cobravam consultas caras, inacessíveis à grande maioria da comunidade, que, quando enferma, recorria aos benzedores, às rezadeiras, curandeiras e charlatões em geral. Este cenário lúgubre fez com que o cônego João Barbosa Cordeiro, partisse para a construção de um hospital voltado para estes muitos miseráveis. Era setembro daquele distante 1850; nascia o Hospital de Caridade, hoje, 156 anos depois, a Santa Casa de Misericórdia de Maceió. Desde o início de sua longa vida, uma extensa lista de colaboradores, tanto anônimos, quanto membros ilustres da sociedade participaram na edificação e manutenção de suas centenárias atividades. Coincidência ou não, na semana na qual o hospital mais tradicional de Alagoas completava 156 anos, incidentes deploráveis aconteceram, mostrando que para a grande maioria da população, o acesso à saúde pública ainda é uma questão crudelíssima. Um dia antes de Temporão, ministro da Saúde, passar algumas horas aqui; trazendo embutida na campanha de aprovação da CPMF, alguns recursos para minorar o caos na Saúde, a unidade de emergência foi invadida por grevistas radicais que tumultuaram uma unidade que já convive rotineiramente com a angústia e o desespero. Na calçada, um carro de som emitia além de palavras de ordem, música estridente. Pacientes gravíssimos e famílias desesperadas sentiram-se ainda muito pior e foram naquele momento esquecidos. Os trabalhadores da saúde recebem salários vis, mas o bom senso exige respeito às regras da civilidade e às instituições, que começa pelo respeito às pessoas, que no caso das instituições, começa pelo respeito àquelas que com suor e dedicação as construíram. (*) É médico e professor da Uncisal.