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Opinião

Cegos em tiroteio

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| Ronald Mendonça * A trágica situação da saúde no País que culminou, aqui em Alagoas, com a desastrada invasão da unidade de emergência atende por uma sigla: SUS. Cantada em versos e prosas por sucessivos governos (e alguns puxa-sacos) desde a implantação, teve seu clímax quando o presidente Lula, num rasgo de rara inspiração, reconheceu que ?o nosso SUS é quase perfeito?. O plus para a perfeição acabou de chegar para os nordestinos com a nova tabela anunciada pelo ministro Temporão. Doravante, a consulta chegará a dez reais. Um parto deverá encostar em 110, enquanto cirurgias de amígdalas atingirão o patamar de 30 ou 40 pilas. Em relação a acréscimos para a diária hospitalar, nem uma palavra. Provavelmente, o que o SUS paga sem reajustar há 10 anos já é mais que suficiente. É de domínio público a ineficiência da assistência médica no País. Saliente-se, contudo, que não é um monstrengo nascido na era Lula. Seu papel como coveiro de plantão é apenas de alimentador da fera. O fato é que com esses aumentos fajutos, o ministro faz a clássica manobra de oferecer um pouquinho de oxigênio para manter vivo o moribundo sistema de saúde. Quem sabe, daqui a quatro anos alguém se lembra de conceder mais umas migalhas... Quando se fala em qualidade dos serviços públicos, fora a pesada propaganda oficial, só se sobressai a indústria dos impostos. Temas como educação, segurança, moradia e estradas, são tão dramáticos quanto a saúde. Não é segredo que as prioridades governamentais estão concentradas em obras faraônicas superfaturadas onde as negociatas correm soltas e os intermediários têm a oportunidade de fazer mil sacanagens.. Hoje, o prato do dia é a CPMF, objeto de cobiça do governo federal. A retórica oficial é de que o Estado abrirá falência se não puder contar com esta grana. Apesar do recente surto de independência do Senado Federal, certamente o imposto (?contribuição?) deverá ser confirmado. Nem por isso deve-se esperar grandes coisas, uma vez que a verba deste imposto já está sendo utilizado e ninguém vê nada de novo. Por falar em impostos e multas, engrosso o coro dos insatisfeitos com a maléfica criatividade dos guardas de trânsito. Com efeito, escondidos nas esquinas em duplas, a postura é inconfundível: um deles com um caderninho de anotações, enquanto o outro fica ditando aleatoriamente chapas de carros de supostos infratores. Sem ter para quem apelar, o contribuinte é um cego no meio de pistoleiros. (*) É médico e professor da Ufal.

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