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Opinião

Vida em versos

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| José Medeiros * Fez 30 anos que ?morreram? Carlos Drummond. Uso o verbo no plural, não apenas para parafrasear o próprio artista em seu belo poema Atriz, sobre a morte de Cacilda Becker, mas também por acreditar que Drummond não era somente um. Mas, quem disse que ele morreu? Drummond continua vivo com sua impressionante obra, mesmo tendo se recusado a ser um imortal da Academia Brasileira de Letras. Surpreendentemente fascinante, depois de sua morte, em 1987, nos deixou graciosamente três grandes livros que ainda não haviam sido publicados. Todos ganharam com essa herança cultural. Tímido e recatado como um bom mineiro, mas pouco atraído pelos cuidados com a terra, Drummond dedicou-se às letras desde cedo, escrevendo a história da própria vida em seus versos. O modernismo marcante do estilo de Drummond, com uma linguagem em diferentes ritmos, levou sua obra a uma popularização surpreendente num País onde se lê pouco. Um bom exemplo disso é: ?No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho?, ou ainda ?E agora, José?/ A festa acabou/ a luz apagou/ o povo sumiu?. Versos estes que entraram para a história como ditos populares e mantêm-se presentes no linguajar popular de forma excepcionalmente bela. Os versos a seguir foram o batismo de um novo tempo poético: ?Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução?. ?Se o poeta é aquele que realiza o enigma de ? através da palavra ? conduzir muito mais que ela, rumo à plenitude da expressão, atingindo uma essencialidade que a função comunicativa da língua jamais suspeitaria; se ele é aquele que consegue falar do incomensurável através do limite, conduzindo-nos à beleza?... Então alcança a meta desejada. Apesar de toda genialidade, nunca se ouvia de Drummond declarações grandiloqüentes sobre a vida ou mesmo a arte. Quem se deparou com ele relata que era um homem teimosamente prosaico, despido de todo e qualquer traço de vaidade e orgulho diante de uma obra fabulosa, que começou em 1918. Em uma de suas últimas apresentações, fez para todos nós, uma declaração insólita: ?Sou apenas um homem/ Um homem pequenino à beira de um rio/ Vejo as águas que passam e não as compreendo/... /Sou apenas o sorriso na face de um homem calado?. (*) É médico e ex-Secretário de Educação e Saúde.

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