Opinião
Seixos e pedras
| Marcos Davi Melo * Os tempos na política nacional não são de moleza. Desde que o Congresso foi reaberto, com o fim da ditadura do Estado Novo (segunda ditadura de Getúlio Vargas), Otávio Mangabeira é considerado o maior tribuno parlamentar do Brasil. Outro notável tribuno, Prado Kelly, denominou os discursos de Mangabeira ?seixos rolando?, comparando-os às pedras que jazem no fundo dos rios e vão sendo arredondadas pela força da correnteza. Quando subia a tribuna, o democrata Mangabeira prendia a atenção de todos pela correção da frase curta e direta, pelo vigor da eloqüência, pela justeza dos conceitos, fundamentados e coerentes. E havia as pausas, as famosas pausas de Mangabeira, quando deixava em suspense o público; todos que o ouviam, parando de respirar, à espera da conclusão da sentença. Quando o general Eisenhower visitou a Assembléia Nacional Constituinte em 1946, Mangabeira o saudou. Foi uma oração de mais de duas horas, elaborada para descrever a atuação do cabo-de-guerra americano na Segunda Guerra Mundial. Nunca Mangabeira falara tão bem; o discurso mereceu aplausos prolongados de quantos compunham a assistência. Indagado de como recebera a saudação, Eisenhower declarou: ?Não entendi uma palavra, mas foi o maior orador que eu já ouvi?. Quando o senador Welington Moreira reverberou em plena reunião da Comissão de Ética que o Congresso estava cheirando mal em decorrência da presença de seu par, o senador Jarbas Vasconcelos, deu-lhe uma pedrada. A bem da verdade, o cabeludo senador não está sozinho na cena pública brasiliense. Na semana passada, em plena seção do Supremo, dois ministros, os ilustres Gilmar Mendes e Afrânio Barbosa, trocaram pedradas mutuamente, quando se fizeram acusações de desonestidade. Mas o Supremo, na média tem se comportado muitos degraus acima do Legislativo. Recentemente acatou a denúncia contra os mensaleiros e agora deu um basta no infame troca-troca partidário. Poderia até ter sido mais rigoroso, mas restringiu-se à frieza pétrea da lei. Ao contrário do ambiente na Câmara, aonde a aprovação da CPMF, veio com farta e lesiva negociação de cargos públicos e emendas partidárias. O Congresso nacional ? com o beneplácito do Planalto ? com sua insaciável gula nos apedreja e nestes dias se assemelha a Roma antiga, em seus piores momentos de decadência, quando segundo Salústio, os cidadãos mais sérios proclamavam pelos quatro cantos da cidade: Roma omnia venalia est: em Roma tudo está à venda. (*) É médico e professor da Uncisal.