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Opinião

Europa sem Deus

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| Dom Edvaldo G. Amaral * ?Vês Europa cristã, mais alta e clara / Que as outras em polícia e fortaleza? ? escrevia nos Lusíadas (X, 92) o maior bardo da nossa língua, Luís de Camões (1525-1580). Isso ele dizia na época dos Descobrimentos, no esplendor da epopéia náutica ibérica, quando ainda se atrevia a cantar ?E também as memórias gloriosas / daqueles reis que foram dilatando / a Fé, o Império, e as terras viciosas / de África e de Ásia andaram devastando? (I, 2). Hoje já é difícil dizer quais são ?as terras viciosas?. Isso no século 16. Mas já no fim do século 19, em 1886, o cardeal Parocchi numa conferência aos cooperadores salesianos em Roma, referindo-se ao século que terminava, exclamava com arroubo oratório: ?Ah! infelizmente este século que está a expirar que deixou na ordem intelectual e moral? Nada! Tudo destruiu, tudo aniquilou com seu ceticismo.? E concluía: ?A destruição da fé é o maior mal do mundo!? E hoje, com a Europa dos 27 unida, que podemos dizer? Há fatos recentes bem inquietantes. No fim do ano passado, um pouco em toda a Europa, criou-se o receio de com a celebração do Natal ?ofender? ? diziam ? a sensibilidade religiosa dos grupos não-cristãos, cada vez mais numerosos. Nas ruas e escolas, em nome do ?politically correct? suprimiram-se os presépios, as iluminações, as árvores de Natal, os cantos natalinos e outros sinais da tradição cristã, para não ?perturbar?, dizia-se, a sensibilidade dos não-cristãos. Um jornalista indagava: ?É mesmo para não ferir a sensibilidade dos muçulmanos ou é porque perdemos a identidade cristã e com ela, a identidade européia?? Na elaboração da Constituição da União Européia, João Paulo II e alguns poucos deputados cristãos do parlamento europeu lutaram por um reconhecimento explícito das raízes cristãs da Europa. A chanceler alemã Ângela Merkel, cristã não-católica, e o chefe do governo italiano Prodi tudo fizeram para preservar o que chamaram ?a inegável herança histórica da Europa cristã?. Nada conseguiram. Energicamente, Bento XVI protestou: ?É preciso enfrentar com determinação o risco de opções políticas e legislativas, que contradizem valores fundamentais e princípios éticos radicados no ser humano.? E continua noutro texto: ?Em nosso tempo, há a tentativa de excluir Deus de todos os espaços da vida. Cabe a nós, cristãos, mostrarmos que a exclusão da religião da vida social mina as bases da convivência humana.? E ainda: ?Uma Europa, que pretende eliminar as pontes de sua tradição cristã, enquanto se afasta de Deus renega-se a si própria. Seria uma singular auto-apostasia!? É a triste Europa sem Deus dos nossos tempos. (*) É arcebispo emérito de Maceió.

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