Opinião
O homem cordial e a viol�ncia
| Marcos Davi Melo * Muitas razões deverão existir para que o filme Tropa de Elite, estrelado por Wagner Moura, tenha estourado como o mais pirateado e aponte como o filme brasileiro campeão de bilheteria nos cinemas este ano. Nas cenas de violência dos policiais contra os marginais, a platéia vibra, se manifestando abertamente a favor da violência institucional contra os bandidos. Onde está o homem cordial surgido da obra Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda? Os exemplos para justificar este tipo de comportamento não param de se repetir em uma constância mais do que aterradora. Nesta semana, em um assalto a uma van de transporte coletivo no interior, os passageiros além de terem sido humilhados com a nudez, foram colocados no chão e atropelados pelos marginais. Pura perversidade. A barbárie se repete a toda hora em todo o País. Fácil de entender porque a ONU classificou o Brasil como um dos países onde a sensação de insegurança é mais forte em todo o mundo. Mas a escalada da violência em todos os cantos do País não se resume aos assaltos à mão armada e aos crimes bárbaros. A postura violenta da sociedade pode ser vista nas coisas mais corriqueiras, como no dia-a-dia do trânsito. Motoristas de todas as idades e sexos agem de forma cada vez mais agressiva, na maioria das vezes fazendo ultrapassagens abusivas, dando fechadas agressivíssimas, tudo para ganhar alguns segundos, que a nada levarão. É como se todos quisessem levar vantagens sobre todos, o tempo todo. Resultado: 45 mil mortos anualmente no trânsito. Mais que no Iraque. Paralelamente, nem a Polícia reprime adequadamente os excessos, e quando faz o seu trabalho, a Justiça não faz o seu, punindo com rigor os violentos de todas as espécies. Pior, os exemplos edificantes, que deveriam vir de cima, não vêm nunca; ou não será pura violência o jogo bruto do Planalto, querendo a todo custo aprovar a CPMF ? que foi criada para socorrer a saúde e não o faz ?, e sentindo a possibilidade de perder no Senado, ameaça aumentar outros tributos e ainda reduzir os recursos para a saúde? O mito da cordialidade de Sérgio Buarque de Holanda, nunca significou bondade e generosidade; mas sim a dificuldade do brasileiro de lidar com as questões sociais ou políticas de forma racional. A raiz etimológica da palavra cordialidade é coração; assim tudo entre nós é resolvido passionalmente, irracionalmente, violentamente. É a guerra de todos contra todos, que Hobbes afirmava ser a condição primitiva da sociedade. (*) É médico e professor da Uncisal.