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Opinião

O medo da vizinha

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| Ronald Mendonça * Numa época em que, em Cuba, Che Guevara ainda sangrava adversários reais ou imaginários, um tio gordo e bonachão, meio moambeiro, aparecia de quando em vez na província. Contando histórias da distante São Paulo (mentia pra caramba) para aonde fora ainda garoto, inventando uma estrepolia a cada hora, sua efêmera passagem era festa garantida. Num belo dia de chuva ? ele curtia praia com chuva ? levou-nos à Pajuçara. Nesse dia vi o tio chateado. É que no retorno do banho de chuva, ele se deu conta de que o carro tinha sido arrombado. Para seu desgosto, um legítimo Patek Philippe (segundo suas palavras, ?o relógio mais caro do mundo?) tinha sumido. Na volta para casa, meio taciturno, de quando em quando repetia: ?E ainda dizem que Maceió não tem ladrão...? Dias depois, já refeito, comentava resignado que havia nascido nu e estava vestido. De modo que se tiver alguém aí desfilando com um Patek Philippe adquirido há 40 ou 50 anos, por preço vil, pode ficar tranqüila que a peça tem procedência. Esse lenga-lenga inicial é para entrar no assalto em que foi alvo o apresentador da TV Globo Luciano Huck. Consta que os bandidos levaram um Rolex, presente de aniversário da esposa, a doce Angélica. Huck ? um enjoado, diga-se de passagem ?, se não bastasse a inevitável repercussão na mídia, publicou polêmico artigo no jornal Folha de São Paulo relatando a tensão do episódio e aproveitou o espaço para deitar considerações sociológicas. As reações não tardaram. É que existe neste País uma espécie de polícia política (no momento, parcialmente arrolhada pelo desfrute das benesses do lulismo) que se especializou em jargões. A expressão da moda é ?elite? com alguma tendência a substituir ?burguesia?, termo decadente, mas que já teve seus dias de glória: ?A burguesia tem seus caprichos?. O fato é que Luciano Huck, mesmo sendo um chato de galocha, ainda que faça parte da elite dos comunicadores, tem todo o direito de se manifestar como qualquer cidadão. Ora, se o jornal abre espaço para outras elites tipo Dirceu, Genoíno, Frei Betto, Tarso Genro e até para o próprio presidente, por que o narigudo não pode chorar as horas derramadas? As coisas andam tão loucas neste País que o sujeito fica caçando ancestrais negros temendo ser tachado de ?elite branca?. Conheço pessoas que antes de admitirem ter estudado em colégio particular trancam todas as portas e ainda assim ficam com medo que a vizinha tenha escutado e denuncie. (*) É médico e professor da Ufal.

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