Opinião
Salvemos as focas
| JORGE BRISENO * Presenciamos, alguns dias atrás, uma cena inusitada durante a partida de futebol entre o Atlético Mineiro e o Cruzeiro, clássico do futebol de Minas Gerais. A certa altura do jogo, o jovem Kerlon, de apenas 19 anos, integrante do time do Cruzeiro, talvez inspirado pelos deuses do futebol, protagonizou um lance fenomenal. Um drible espetacular, logo denominado de ?drible da foca?. O moleque Kerlon conduziu a bola de forma ardilosa, quicando-a na cabeça tal qual uma foca amestrada, em ameaçadora direção ao gol do time atleticano. Um instante raro de genialidade, ousadia e criatividade que só não prosperou porque Coelho, o truculento zagueirão do Atlético, como um bólido, um tanque de guerra alemão Panzer, partiu para cima do jovem cruzeirense cometendo falta - uma quase tentativa de homicídio - e paralisando o belíssimo lance de malabarismo. Naquele momento, ao invés de cometer a falta, o defensor do Atlético deveria curvar-se, render-se ante a demonstração de criatividade. Todo o time atleticano deveria, naquele instante, diante da genialidade, estender o braço em uma daquelas mesuras rasgadas que exigem um chapéu com penacho para varrer o chão como vemos nos filmes dos Três Mosqueteiros. E mais: todos os que estavam no Mineirão - fossem cruzeirenses ou atleticanos - deveriam, de pé, aplaudir em palmas de queimar as mãos e de perder os anéis dos dedos. Não abro exceção nem para os juízes e bandeirinhas. Diante daquela obra de arte, daquela alegria, ousadia e criatividade, só deveriam permitir que Kerlon saísse do estádio num tapete vermelho. Tanto no mundo do futebol como no mundo corporativo - público ou privado -, o comportamento de alguns dos seus gestores possui verossimilhança com o comportamento do zagueirão atleticano Coelho. Ao menor sinal de criatividade ou inovação de um liderado na tentativa de solução de um problema ou diante da ousadia de um subordinado para driblar uma dificuldade, a idéia é imediatamente barrada ou impedida de prosperar e o fluxo criativo interrompido. Agem como se subverter práticas adotadas há muito tempo ou a criação de algo que ninguém fez até hoje fosse inaceitável; como se quebrar antigos paradigmas, fortemente enraizados na cultura das organizações, fosse sacrilégio, esquecendo que ser criativo implica, necessariamente, em inovar. Portanto tanto no mundo futebolístico quanto no mundo das organizações deveremos ter uma só palavra de ordem, uma só atitude: liberdade para as focas! (*) É diretor de Operação da Casal e boleiro nas horas vagas