Opinião
A quantas anda nosso Estado?
| Vera Lúcia * Após sofrer agressões morais, ser ameaçada de morte e ter meu carro levado por meu ex-marido, um militar reformado da Marinha do Brasil, procurei a sede da Delegacia da Mulher para prestar queixa. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com vários policiais a conversar. Apesar de assustada por ver meus direitos de mulher, cidadã, serem ultrajados, cumprimentei-os e perguntei-lhes qual seria o procedimento para se fazer uma queixa. Eles responderam que estavam em greve e que não tinham previsão de retorno. Um deles, mais engraçadinho, disse que queria saber quem matou Taís. Ele mesmo respondeu que foi o Olavo e queria contratá-lo para matar o governador, que não estava fazendo nada para que a greve acabasse. Saí dali com um nó na garganta, lágrimas nos olhos e sem direção. Procurei outras delegacias, em vão. Ao cair da tarde, através de indicação de amigos, consegui ser atendida na Delegacia Especial da Criança e do Adolescente. Registrei um BO e pensei que o meu algoz seria punido. Achei que ele seria enquadrado na Lei Maria da Penha, processado por preconceito e calúnia, eu teria meu carro de volta e meu direito de ir e vir restituído. Na manhã seguinte, de posse do BO, dirigi-me à Capitania dos Portos de Alagoas para formalizar a denúncia. Fui informada que o BO só teria validade naquela instituição se estivesse anexado a um ofício da delegada. Como era sexta-feira, fiquei ?a ver navios?, literalmente. Enquanto isso, o agressor, livre, pôde ir à porta da escola onde trabalho e continuar as agressões morais e ameaças diante da comunidade escolar. Continuo esperando as providências do meu Estado. Fui agredida no meu trabalho e não posso ir à universidade.Tive meu carro de volta, porém sem alarme, sem som, sem estepe. Os documentos que estavam no mesmo foram destruídos. A quem recorrer? Sinto-me vivendo num Estado onde a impunidade predomina, o preconceito impera e o machismo mostra a sua cara de maneira cruel e desalmada. Onde, por trás de um frágil regime democrático, escondem-se militares com resquícios de uma ditadura que emerge sempre que esses vêem suas ordens não serem acatadas por suas companheiras ou ex-companheiras. Até quando nós, mulheres, teremos de passar por essas humilhações? Até quando teremos nossos direitos básicos negados? Será que vou ser mais uma vítima a fazer parte das estatísticas nesse sistema doente em que vive nossa sociedade? Espero sobreviver. (*) É professora e mestranda da Ufal.