Opinião
Cidadania sob risco - Editorial
Algumas frases têm a capacidade de resumir problemas de grande envergadura, muitas das vezes comprovando, em poucas palavras, problemas negados com veemência durante muito tempo. É o caso da colocação feita, anteontem, por um deputado, no plenário da Assembléia Legislativa, criticando a ação realizada pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) na desocupação da Sefaz: ?Se os companheiros da Polícia Civil, que geralmente participam das mobilizações e atos de protestos armados, estivessem acampados no prédio da Secretaria da Fazenda haveria o risco de um confronto armado com os policiais do Bope? Impressionante: confirma-se a suspeita de que ?companheiros? (?) ?geralmente participam armados? (!!) de atos públicos. Tal temeridade já havia sido levantada pela mídia mais de uma vez, inclusve quando da condenável interrupção do desfile cívico do Dia da Independência. Anteontem, porém, em discurso proferido no plenário da Casa Tavares Bastos e transmitido ao vivo pelo sistema de telecomunicações do Poder Legislativo, o que se temia foi confirmado. E por quem tem fundo conhecimento de causa, em função de décadas de participação direta nas manifestações públicas. Tal prática é um acinte à cidadania e uma agressão ao direito de greve, duramente conquistado por trabalhadores desarmados (sob legislações draconianas) num processo de luta que atravessou, pelo menos, dois regimes autoritários (1937/1945 e 1964/1984). Merecem cíticas as ações do Bope, até por ter recuado e coonestado com a invasão da Secretaria da Fazenda, apesar de ter sido mobilizado para evitar essa ocupação horas antes do incidente. Aos líderes grevistas deve ser cobrada a responsabilidade para com a preservação do Estado de Direito, incompatível com ?braços armados? do movimento social.