Opinião
De leprosos e Zaqueu
| Ronald Mendonça * Desprovido do cacife da fé para discutir a divindade de Jesus, freqüentemente surpreendo-me em leituras da memória de histórias guardadas da infância. Em plena ?semana do médico?, enquanto ouço as belas orações de exemplares colegas mais velhos - e aí incluo José Medeiros e Milton Henio - viajo nas curas milagrosas do Nazareno. Nascido escravo, filho de carpinteiro, hoje, o Galileu, como a maioria dos médicos, estaria incluído numa sofrida classe média. Batalhador incansável, ele próprio carpinteiro até os 33 anos, além de pregador criativo e carismático, pescador de almas, pastoreando ovelhas desgarradas, Cristo exerceu a Medicina como poucos. Não há como negar, contudo, suas obras de engenharia. Seu esforço nesse sentido foi de criar pontes que ligassem a terra com o céu. Superou-se na construção de estradas para o paraíso, transformando-se, Ele próprio, em caminho ao decretar que ninguém iria ao Pai por outra via. Mas, é com o olhar de ?colega de profissão? que reflito nas decepções do Salvador. Ontem, como hoje e sempre, a ingratidão humana não reconhece limites. Com efeito, depois de curar dez leprosos e apenas um voltar para agradecer, um magoado Jesus deixa um recado para os médicos de todos os tempos: que ao longo da vida ninguém espere gratidão. Nem só de decepções vive o médico. Nas horas vagas é atemorizado pela Receita Federal. Funcionários públicos e prestadores de serviços a planos de saúde, os ganhos dos médicos são monitorados com lentes de aumento e o rigor de mórmons, fazendo a festa da sanha arrecadadora do governo. No fim, todos sabem o destino desses impostos. Arbitrária, a Receita trata o cidadão como leproso. Sob o manto de tendenciosa legislação, ameaçando com decretos e alíneas se não se apresentar num prazo de cinco dias, sabe ser rápida quando lhe é conveniente. Recursos do contribuinte apontando abusos da repartição dormem anos nas gavetas da burocracia. Sem pressa para julgá-los, inclusive pelo fato de as dívidas continuarem a aumentar de forma estratosférica, esses caras não estão nem aí. No seu romantismo, a bíblia relata a recuperação moral de um certo Zaqueu. Implacável cobrador de impostos, o temido anão, depois de um jantar com Jesus, devolveu tudo o que arrecadou indevidamente. Não sei se subiu ao Céu, mas com certeza não teria espaço para trabalhar na Receita Federal. (*) É médico e professor da Ufal.