Opinião
Artes m�dicas e realidade
| Marcos Davi Melo * Relatos Inspirados nos primórdios da história universal, como aqueles retirados de obras como a Ilíada, apresentam a medicina como arte natural, sem caráter mágico ou sacerdotal, sendo exercida por pessoas conhecidas por seu saber e pela sua extrema dedicação; cujos serviços eram tidos em grande apreço. Ali se descreve quando o guerreiro Macaon é atingido por uma flecha lançada por Paris: ?O médico é um homem que vale por muitos outros, porque sabe extrair as flechas e acalmar as dores com os remédios?. Já na Odisséia, posterior à Ilíada, aparecem referências a remédios e práticas mágicas, provenientes do Egito, a ?terra dos médicos mais sábios e dos remédios e venenos mais extraordinários e numerosos?. Outro exemplo é a beberagem ministrada por Circe aos companheiros de Ulisses, a qual lhes faz esquecer a pátria e os transforma em porcos. Belo exemplo é o nepenthes, maravilhoso remédio que, adicionado ao vinho, por um dia inteiro suprimia o sofrimento e a cólera e permitia suportar, serenamente, os piores tormentos e as mais terríveis privações. Tantos séculos depois, ao perguntar a um bocado de crianças o que querem ser quando crescer, muitas responderão: ?Quero ser médico!? Por quê? E a resposta será: ?Porque quero ajudar as pessoas?. Esta esperança infantil tem tudo de aspiração humana saudável; de sentimento humano superior. É também incontestável que outra parcela de jovens faça vestibular e se forme em Medicina pensando em ganhar dinheiro e ascender socialmente e economicamente. A pergunta é: Quem dos dois terá maior possibilidade de, com o transcorrer do tempo, com anos de exercício da profissão, se frustrar mais? Os que estudaram Medicina e se formaram pensando em ajudar as pessoas, principalmente as mais necessitadas - por mais ingênua que esta intenção possa parecer atualmente -- terão sempre muitos necessitados aguardando-os, mas terão seriíssimas dificuldades para pagar as suas contas. O que não falta é gente doente, carente e desassistida em todo lugar. Terão também muitos motivos para se frustrar com o que propõe o SUS e o que se vê na prática. Verão que uma das suas principais bandeiras, o Plano de Saúde da Família (PSF), funciona mais para os prefeitos dos municípios do que para a população. Verão centenas de portarias do Ministério da Saúde, cada uma mais distante da realidade do que a outra. Verão que a Medicina não é levada a sério no País e precisarão de muito amor à arte para continuar a jornada. (*) É médico e professor da Uncisal.