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S�o Jorge de prost�bulo

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| Ronald Mendonça * Enquanto nossa operosa Receita Federal continua na sagrada missão de perseguir profissionais da saúde, exigindo relatos pormenorizados de recibos de três mil reais (explicitando mês, dia e hora; se em cheque, dinheiro ou mercadoria; se o pagamento foi efetuado sentado, de pé, de cócoras ou de quatro; se à mesa ou no sanitário), foi lido o relatório final da CPI do Apagão Aéreo. O relator, senador e promotor de justiça de Goiás, concluiu que nos últimos anos, sob o pó das construções de aeroportos, o Estado foi lesado em cerca de 500 milhões de reais. Para o relator Demóstenes, o descalabro teve, sim, um chefe-de-quadrilha (mais um) que atende pelo nome de Carlos Wilson, deputado federal pelo PT de Pernambuco. Diante desta rotina, a sugestão é que o dinheiro dos impostos seja repassado diretamente do contribuinte para a conta dos Carlos Wilsons da vida, eliminando de vez a função de mero intermediário da Receita Federal. O fato é que convencido do papel nodal do nobre deputado Wilson no esquema, o relator não hesita em chamá-lo de ?São Jorge de Prostíbulo?, irônica referência à onipresença do santo guerreiro nesses ambientes de concupiscência. Apesar da comparação ofender ao santo, Carlos Wilson teria incorporado alguns de seus cacoetes: finge nada ver e por isso também nada faz para impedir as orgias. Por essas e outras, hoje não tem sido fácil a vida do velho Jorge. Entidade que pontifica em duas religiões (desde que escravos negros observaram sua figura eqüestre e a relacionaram ao poderoso Ogun), de fato, seu cacife parece não ser mais o mesmo. Não é de admirar a crise moral e esportiva do glorioso Corinthians paulista, que tem como padroeiro ninguém menos que o santo guerreiro. Embora pessoalmente não costume pedir arrego a São Jorge, estou sensibilizado. Com o prestígio aparentemente em queda na esfera celestial, imagino as humilhações do guerreiro por não ter condições de atender às demandas de seus devotos. Urge lutar pela sua reabilitação. O senador Demóstenes já desencadeou esse movimento. A essa altura, soa modesto para o santo marcar presença apenas nos prostíbulos e nos terreiros de Umbanda. Nesse aspecto, a capital federal encaixa-se como uma luva. Com efeito, os últimos acontecimentos demonstram que Brasília atingiu tal nível de envergadura moral que, hoje, é uma questão de coerência e justiça erigir imagem de São Jorge em plena Praça dos Três Poderes. (*) É médico e professor da Ufal.

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