Opinião
Livros, leitura e literatura
| Marcial Lima * Coadjuvei dois acontecimentos recentes: a escritora Nélida Piñon entregando ao governo federal o Plano Nacional do Livro e Leitura, e a realização da 3ª Bienal Nacional do Livro em Alagoas. No primeiro, Gilberto Gil afirmou que o livro solicita condições que extrapolem as habilidades básicas de leitura, porquanto não funciona por si próprio, exigindo perceber a pessoa que dele faz uso dentro de uma perspectiva cultural, o que nos pede levar em conta a amplitude do universo do leitor, seu repertório de imagens e de habilidades, fazendo emergir, daí, ?as vozes dos poetas, as tensões dos enredos, as profundidades dos dramas, as valentias ou as misérias dos heróis, em suma, o prazer da leitura?, desenvolvendo uma faculdade imprescindível para a existência da literatura: a imaginação. Vê-se, portanto, que não nos bastam números de títulos publicados: é preciso leitores ? personagens principais de qualquer livro ? capazes de fazer o texto brotar nas múltiplas direções de suas potencialidades. ?A leitura qualifica a relação do indivíduo com seus pares, com a saúde, com a cidade, com o ambiente, com a política, com a economia, constituindo-se uma base sólida para o desenvolvimento de uma cultura de discernimento e de diálogo, e para a construção de um ambiente social qualificado?, concluiu o ministro. Na Bienal, encontramos a professora Sheila Maluf, sua coordenadora ? mulher dinâmica, empreendedora, correta ? que, indo além dos aspectos comerciais (necessários em si, diga-se), não mediu esforços para sensibilizar as escolas públicas e particulares, arregimentando milhares de crianças e jovens, alguns deles tendo seu primeiro encontro com o livro. Em nosso País, um perverso processo histórico de exclusão repercute nos dias atuais trazendo-nos muitos desafios, e, para superá-los, reconhece Fernando Haddad, faz-se necessário uma política consistente que promova o domínio da leitura e da escrita; daí a importância de acontecimentos como esses de que participamos. Por isso, políticas públicas, numa visão intersetorial, onde cultura, educação e economia se encontrem, colocam-nos com os pés no chão, mas, também, com os olhos no infinito, evidenciando o livro, a leitura e a literatura; pondo em pauta, como bem disse o já citado Gil, as questões de mercado, do direito de cidadania e das dimensões simbólicas das expressões culturais. (*) É presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural.