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Opinião

Um mosquito perigoso, mas democr�tico

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| José Medeiros * Lembro uma crônica de Rubem Braga que diz: ?Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta, quando lesse minha história no jornal, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse: ai meu Deus, que história mais engraçada!?. Concordo inteiramente com o autor, mas, nem sempre é possível escrever sobre coisas agradáveis, leves e bem-humoradas; boas notícias, daquelas que fazem bem à alma e compensam as amarguras do dia-a-dia. Crônica é o retrato do cotidiano, retocado ou em preto e branco, nos limites entre ficção e realidade. Venho de uma visita a uma colega que está acamada, há uma semana, vitimada pela ?doencinha? insidiosa chamada dengue. Lembro que ela teve essa moléstia anteriormente, o que a inclui no grupo de maior risco. Bastou olhá-la para saber que seu estado era preocupante: as dores eram agudas e estava extremamente debilitada, branca como papel. Sorri para animá-la, relembrando fatos de sua intensa atividade. Mal abria os olhos. Lembrei-lhe que costumava dizer: se cair cinco vezes, tenho que levantar seis. Após a visita, enquanto tomo um cafezinho com sua mãe, conversei com o médico que estava cuidando dela. Ele já havia concluído que ela era portadora de dengue hemorrágica. De volta ao apartamento, vim em silêncio, pensativo. Os minutos passavam vagarosamente, como se o relógio estivesse contagiado por nossa compaixão solidária. Os médicos cuidam da saúde dos outros e, muitas vezes, esquecem a sua. Isso é quase sempre regra geral; somente realizam exames de rotina após insistentes reclamações. Não fujo à regra, sou um descuidado dessas exigências e necessidades. Passados alguns dias, tive um momento de inesperada alegria. Recebi um telefonema dessa colega: voz fraquinha, porém alegre; levantou-se do leito após 17 dias de enfermidade. Em nenhum momento deixou de ter o pensamento positivo de que se recuperaria. O mosquito da dengue vem desafiando a saúde pública em boa parte do planeta. É democrático: ataca ricos e pobres, em favelas e condomínios de luxo. Impedir a ação dos agentes de saúde no combate à dengue é ?crime? que deveria estar previsto na lei. São alvos dos agentes: pneus, garrafas, lajes, em casas sem telhas, e até bromélias; plantas que, com desgosto, retirei do pequeno jardim do meu apartamento. Uma epidemia de dengue está em curso, afirma o Ministro da Saúde. (*) É médico e ex-secretário de Saúde e de Educação.

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