loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Rio de l�grimas

Ouvir
Compartilhar

EDUARDO TAVARES MENDES * Apesar de sua importância, o Velho Chico tem agonizado de morte, face ao descaso dos governos federal e estadual, que insistem em não ver que a proliferação de hidrelétricas e o desflorestamento somente têm contribuído para o fim do chamado ?Nilo brasileiro?. O Rio das Velhas, maior afluente do São Francisco, já não é mais o mesmo de outrora: navegável e com fartura de peixes. Outros afluentes que dão corpo ao grande rio não têm sido capazes de manter o seu leito cheio como dantes, e as previsões de que secará de vez começam a preocupar os ?beiradeiros?, que já não encontram maiores dificuldades para atravessar, a nado, o seu curso maior. A falta de preocupação das autoridades constituídas com o meio ambiente e, sobretudo, com a sobrevivência de um rio histórica e economicamente essencial para o progresso de parte de um território tão vasto como o Nordeste, mormente em época em que os países mais desenvolvidos direcionam toda atenção para a substância do próprio planeta Terra, não condiz com o espírito ecológico do brasileiro, que tem primado pela preservação das nossas florestas, da nossa fauna, dos nossos rios e lagos, e da vida em todas as suas formas e manifestações. Em recente viagem à Argentina, pudemos verificar como as províncias de Buenos Aires e Tigre convivem com o Rio Tigre, conjugando o lazer com a produção de pescados. Rio de pouca e escura água, diferentemente de muitos dos nossos, é de espantar o cuidado que o governo e os povos ribeirinhos têm com o seu leito caudaloso e estreito. No Estado do Maranhão, em visita à região dos Lençóis, observamos, igualmente, o nascer e o morrer do Rio Preguiça que, com pouco mais de 100 quilômetros de extensão, consegue levar fartura e entretenimento às populações marginais, até chegar ao Oceano Atlântico, sem sofrer qualquer agressão no seu ecossistema. Apesar do seu pequeno porte, embarcações de até 12 metros singram as suas águas, formando um constante vai-e-vem de lanchas e barcaças, à vela e motorizadas, no veio principal e nos seus canais. No São Francisco, entretanto, canoas de ?tolda? e grandes embarcações só nas lembranças dos tempos das enchentes: da ?tupi?, da ?tupiji? e da ?tupã?, dos ?mandins?, dos ?surubins? e dos ?carás?, quando cada feira era uma riqueza de produtos, do rio e das roças, ocasião em que a velha ?candelária? unia seus povos, transportando seus pertences, sua história e seu folclore. As barragens e o desmatamento, especialmente das cabeceiras, têm sido, inegavelmente, os maiores responsáveis pelo enfraquecimento do outrora pujante rio que, da maneira como se encontra, já não é mais soberbo, pois perdeu a exuberância das águas, a força das correntezas, a vaidade de sua beleza, a imponência das velas, o desfile das ?chatas?... Para o povo do rio, resta a esperança ? que, no dizer do padre Vieira, é a ?doce companheira da alma? e que nos faz sonhar com melhores dias para tantas comunidades que dependem de sua saúde e do seu vigor. Como gente da região, resta-nos o consolo da solidariedade do sertanejo, da sua garra e do seu destemor, o que nos faz afirmar, repetindo o cancioneiro popular, que ?em nossas veias corre sangue com areia daquele velho chão caboclo?. A ameaça da transposição de suas águas, para abastecer outros rios, faz-nos refletir e recorrer ao ensinamento da frase de autoria anônima, que afirma: ?Mais vale preservar uma gota d?água do São Francisco, hoje, do que chorar uma lágrima por ele amanhã, mesmo que sincera?. (*) É PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE ALAGOAS

Relacionadas