Opinião
Aquele tesouro escondido
| Cônego Henrique Soares * ?O maior dentre os últimos acontecimentos ? que Deus morreu, que a fé no Deus cristão fez-se incrível ? já lançou suas primeiras sombras sobre a Europa?. São de Nietzsche, filósofo ateu alemão do século 19, estas palavras terríveis e, no entanto, proféticas: ele constatava a morte de Deus na vida do Ocidente, que o apagou de sua consciência coletiva sócio-cultural. Os que fazem a cultura e ditam os valores e normas de comportamento agem como se Deus não existisse! Deus está ausente das rodas dos manda-chuvas da economia e da política, da reflexão de grande parte dos intelectuais e dos astros e estrelas da mídia. Quando se fala em Deus, trata-se de um deusinho vagabundo, de um ídolo reduzido miseravelmente a uma idéia vaga que diz ?amém? a todos os caprichos nossos. O Ocidente encontra-se atolado numa incrível crise de valores, num terrível vazio moral: falta uma reflexão ética verdadeiramente digna do homem no âmbito da cultura, da economia, da sexualidade, da família, dos meios de comunicação, da política. As pessoas já não mais conseguem encontrar um sentido para sua existência; drogam-se com entorpecentes e com a febre do consumismo, do prazer e do poder. Empurra-se a existência com a barriga! Três fenômenos de nossa época mostram esse vazio: (1) o consumismo desenfreado: consome-se para se ter a impressão de que se está preenchendo a existência e satisfazendo a saudade de infinito do nosso coração; (2) a profusão frenética de eventos esportivos e shows: vivemos de evento em evento, de show em show para fazer de conta que estamos esperando algo, dando sentido e alegria aos nossos dias; (3) a exagerada explosão do mercado do turismo, sobretudo nos países ricos, mostrando o quanto as pessoas, com medo de viajarem para o interior de si, precisam escapar, conhecer sempre novas coisas e novos lugares, entretendo-se para não enfrentar a mesmice da existência que nos faz perguntar pelo sentido da vida! Que esperar de uma sociedade assim? No Evangelho, Jesus fala do Reino, que é a presença de Deus no coração do homem e do mundo. Presença que Cristo veio trazer e se torna uma realidade quando nos abrimos de verdade à sua palavra. Quem o encontra, encontra o sentido da vida, encontra o Reino e já não mais precisa fugir, drogar-se com essas drogazinhas que o mundo atual oferece, empanturrar-se com as bugigangas que a sociedade hodierna nos coloca à disposição. Quem encontrou o sentido da existência encontrou o maior de todos os tesouros, aquele escondido que, uma vez nosso, ninguém nos poderá tirar!. (*) É sacerdote e professor de Teologia.