Opinião
A tristeza dos mortos
| Ronald Mendonça * Ainda como festejo alusivo ao Dia dos Médicos, data comemorada em 18 de outubro, a Academia Alagoana de Medicina prestou homenagem a quatro colegas, três dos quais já falecidos. Instado a saudar o homenageado vivo ? tarefa amena em se tratando do eminente cirurgião François Francisco Oliveira ?, não pude evitar emitir algumas palavras aos que já se foram. Com efeito, Moura Rezende, Jorge Quintella e Argeu Honório exerceram a medicina com singular dedicação. Ao sabor da emoção, concentrei-me um pouco mais no simpático e competente oftalmologista de várias gerações, Moura Rezende. Além de ter sido seu cliente durante muitas décadas, Rezende me livrou, aos quatro anos, de desagradável caroço de feijão no nariz, fruto de radical traquinagem da idade. Anos depois, tive a grata vivência de trabalhar com o meu antigo oftalmologista no Hospital de Pronto Socorro, depois UE Armando Lages. Nesse tempo, pude constatar in loco a competência e o grau de responsabilidade daquele homem maduro, ao encarar com surpreendente bom humor as agruras de um plantão. Não precisa dizer o quanto de admiração e respeito que essa conduta despertava. Das lembranças da época, expresso uma que tem tudo a ver com o momento presente: o salário dos médicos, que já não era nenhuma Brastemp, girava em torno de dez salários mínimos. O aviltamento chegou rápido. Para isso bastou que inteligentes sindicalistas assomassem ao poder e transformassem a classe médica em ?categoria da saúde?. No rastro do declínio salarial, em nome da busca irresponsável pelo modelo cubano, esse mesmo grupo de gênios da saúde pública detonaria hospitais públicos e privados, transformando a medicina assistencial em titica de galinha. Aliás, fingindo não ter nada com isso, esses caras têm nome, endereço, CPF e até CRM, e muitos deles ainda estão por aí mamando em cargos na administração pública. Depois veio o SUS. Se é verdade que um dia Deus criou a vida, certamente o diabo inventou o SUS. Defendido em prosas e versos pelos governos demagógicos de todas as cores, ridiculamente acolhido por teóricos das universidades como redenção e bússola do ensino médico, piada pornográfica, o SUS finalmente está sendo desmascarado. Num momento em que as autoridades do governo de Alagoas decidiram cortar os magros adicionais noturnos da saúde, chego à conclusão que deve ser horrível para os colegas que hoje habitam na eternidade ter que escutar comentários tão pouco otimistas. (*) É médico e professor da Ufal.