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Ideologia e utopia

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| FERNANDO COLLOR * Os partidos políticos surgiram no seio dos parlamentos, como expressões dos interesses neles representados. Eram, na verdade, mais facções que partidos e esses interesses eram idéias mais que ideologias. Tanto que no mais antigo de todos os parlamentos, o inglês, ainda hoje subsistem duas dessas facções conhecidas como ?wigh? (liberal) e ?tory? (conservador), predecessores de dois dos principais partidos ingleses. A rigor, na época de sua fundação não se utilizava a palavra ideologia, para exprimir um conceito então desconhecido. Ela foi empregada pela primeira vez em 1796, já depois da Revolução francesa, por um filósofo quase esquecido e hoje pouco lembrado. Seu nome, Destutt de Tracy. Ele a usou quando quis se referir a uma possível ?ciência das idéias?, que ele não desenvolveu nem chegou a materializar em qualquer escrito. Entretanto, na Assembléia Constituinte de 1789-91, a noção de ideologia ficou caracterizada, na medida em que os dois principais grupos políticos em confronto, ?jacobinos? e ?girondinos?, tornaram-se, historicamente, representantes das posições ideológicas que hoje conhecemos como ?esquerda? e ?direita?, respectivamente. Essa denominação não decorre das posições defendidas pelos grupos parlamentares em confronto, mas pela posição que ocupavam no plenário, em relação à presidência da Assembléia. Com o tempo, o conceito passou a ser utilizado como uma visão sistematizada do mundo, o que hoje chamamos de cosmovisão e, no século 19, não só como visão global, mas também distorcida ou falsificada do universo. No entendimento de seus críticos, ela só existiria na mente dos ideólogos. Daí a razão de Marx e Engels a terem definido como ?falsa consciência da realidade?. Sua explicação era a de que as distorções provocadas pela ideologia resultavam da preocupação econômica, a serviço da dominação de cada classe sobre as demais. A preocupação de ambos em ?desmascarar? a ideologia terminou se transformando num exercício ideológico. O fato é que, se todos os regimes políticos buscam justificar o poder que exercem, é sinal que todo poder político incorpora uma ideologia. Dessa maneira, concepções políticas como o nazismo, o fascismo, o liberalismo, o conservadorismo e o socialismo terminam sendo ideologias, na medida em que procuram legitimar formas específicas de justificar a forma como exercem o poder. Para muitos, porém, as ideologias não passam de utopias, palavra utilizada pela primeira vez pelo escritor e filósofo inglês Thomas Morus (1480-1535), na obra escrita em 1516, para indicar um país imaginário, organizado com o fim de proporcionar a seus habitantes as melhores condições de vida possíveis. O termo é a justaposição de duas palavras gregas: ?ou? (não) e ?topos? (lugar). Indica, portanto, o ?não lugar?, ou seja, o lugar que não existe. Até a publicação do livro de Morus, a palavra significava uma sociedade ideal ou inalcançável, ou ambas as coisas. Entretanto, o conceito exerce duas importantes funções no pensamento político. A primeira é que o pensamento utópico representa sempre uma crítica aos sistemas políticos, sociais ou econômicos existentes, e a segunda é que propõe novos ideais que servem para ilustrar como eles podem ser úteis à sociedade. Num mundo em constante transformação, em que os avanços da ciência e da tecnologia são cada vez mais acelerados, o que hoje é uma utopia, amanhã poderá ser uma realidade. Até mesmo as ideologias, tidas como utopias ? pois nunca são materializadas como foram imaginadas -, podem vir a desempenhar um papel importante e inovador, na configuração de futuro. É o caso da Democracia que, um dia, será praticada sem que tenhamos que sair de casa, usando a televisão interativa, à prova de fraudes. Não só para elegermos nossos representantes, mas para praticarmos a democracia participativa, em que todos tomarão parte nas decisões de seu interesse. Uma utopia que pode estar mais perto de nós do que somos capazes de supor. (*) É senador e ex-presidente da República.

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