Opinião
Mais luz para meu dia
| Dom Fernando Iório * É do âmago da noite que brilha o enfeite da vida. A Liturgia da Vigília Pascal não deixa de cantar: ?De noite iremos à procura da fonte. Somente nossa sede nos guia?. Bem assim o Cancioneiro Popular, talvez inconscientemente, sem o saber, entoou o mesmo mistério de amor que ilumina a vida: ?Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem?. É o mistério que nos atrai, com seu rastro de luz, caminhando majestoso à nossa frente, rasgando o temor e o desespero que a escuridão nos trouxe. Com efeito, a noite não nos amedronta mais, porque em seu meio brilha aquela luz inextinguível. Sua chama produz tamanho encanto que nos faz perceber nosso desejo de vida, nossa necessidade de beleza, nosso anseio de paz. Se outrora, em suas dobras, esconderam-se a maldade, a fome, a violência, a perversidade, a injustiça que aniquilavam a existência, agora, no hoje da vida, tudo se converte em leito onde descansa a semente da vida sem fim. Ornada pela beleza do amado, vitorioso e forte, não é mais a noite do medo, do horror, do desespero, senão a noite do meu bem. Em pleno ?tempo comum?, recordamos o canto do ?exultet?, atribuído a santo Ambrósio, exaltando a noite do maior Bem Ressuscitado: ?Só tu, somente tu, noite feliz, soubeste a hora em que o Cristo da morte ressurgia.? Sobre a noite já não domina a tristeza, nem muito menos a maldade, nem mesmo nada que se esconda da luz, temendo ser descoberto. O novo Adão não se oculta entre as folhagens, mas se eleva reluzente em meio às trevas. Domina, agora, o cintilar do amor vitorioso que acende a chama ardente que queima, mas não consome a vida; ao contrário procura revigorá-la, deixando transparecer Aquele que nos orienta para a terra da promessa. Novo Moisés guia-nos para a vida sem fim, onde não imperam a escuridão e a exploração faraônica que nos roubaram a liberdade e a alegria. Felizmente, o clamor dos oprimidos foi ouvido. Então, para nos libertar, surgiu o sol que converte a noite em dia luminoso. Já não, mutuamente, se acusam os parceiros da criação, confundidos pelo fruto enganoso da serpente, porque, agora, a presença do Divino jardineiro enfeita a noite do imenso jardim da humanidade. Refazemos, então, nosso caminho, certos da vigorosa presença do Caminhoneiro que nos orienta. (*) É bispo emérito de Palmeira dos Índios e membro da Academia Alagoana de Letras.