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Opinião

O pescador de corruptos

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| Pedro Cabral * Acordar numa manhã ensolarada de um feriadão e ver o mar da Pajuçara com suas marolas em conchas, acolhendo trouxinhas de luz solar, é simplesmente impagável. Aí coloco aquele velho e surrado calção de banho, e de repente, ouço o bem-te-vi me dar um bom dia esfuziante. E parto para as areias da praia de Pajuçara. Ainda não vi ninguém descrever a cor daquele mar. Ainda não vi nenhum pintor salpicar na tela a cor desse mar. Ele vem em ondas cintilantes e toca os meus pés. Respiro o ar da manhã e olho a retilínea linha horizontal do infinito. Volto-me para a terra. Os edifícios calados parecem disputar uma vaga na paisagem. Olho a extensão de areia e vejo pessoas a passar silentes, olhando pro chão e o pensamento lá no infinito. Aos poucos, outros vão chegando. Um deles é o alugador de cadeiras de praia. Ele vai distribuindo-as naquele seu território. Um turista e sua cor branca fazem pose para o braço dele mesmo, espichado, para uma fotografia, tendo o verde mar, levemente azulado, como fundo. Olho para o calçadão e avisto amigos em grupos fazendo seu rotineiro caminhar. Ali, as histórias da vida são sintetizadas com um humor demasiadamente humano. Volto-me para as areias e, de repente, não mais que de repente, lá vem ele. Um senhor alto, de bermuda, camiseta, óculos e boné. Sessentão. Traz à mão uma espécie de seringa grande. Feita de cano de PVC. Numa das extremidades, um êmbolo de madeira e na outra um furo da largura do cano de 50mm. Ele vasculha o chão e enterra a seringa e suga algo na areia. Anda e repete o procedimento. Não o vejo pegar nada. Passa por mim e segue o passeio. Intrigado eu me pergunto: será ele um defensor do meio ambiente, retirando sujeiras do solo impregnado? Será ele um aluado? E lá vai ele. Minutos depois, olho pro outro lado e vejo outro cidadão, com o mesmo instrumento, na mesma atividade. Desta feita, percebo uma espécie de samburá preso à cintura, feito da metade de uma garrafa pet, onde ele após sugar o chão, colhe algo e guarda ali. Concluo que o nosso primeiro pescador não era aluado, nem defensor do meio ambiente. Era apenas um pescador de algum crustáceo. E lá vem ele de volta, o primeiro. Agora percebo também o seu samburá de plástico. Aproximo-me para ver se aquele bichinho é tatuzinho. Ele me responde: não, é corrupto. Corrupto? Sim, corrupto. Sorrio e provoco: não seria mais fácil o senhor ir para Brasília, não? Ele, apontando para o chão, me responde laconicamente: não, aqui também têm muitos. Aquele apontar pro chão parecia dosado de dubiedades. Olhei pro samburá de plástico e inferi o que ele quis dizer. Ele havia pescado poucos corruptos daquela espécie. (*) É arquiteto e professor de Arquitetura e Urbanismo da Ufal.

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