Opinião
Fome e combust�vel - Editorial
Esquentando em paralelo ao aquecimento global, pega fogo o debate sobre as alternativas energéticas planejadas para a redução da emissão de gases causadores do efeito estufa. Em documento divulgado anteontem, a Organização das Nações Unidas sobre Direito à Alimentação lançou vigoroso documento no qual alerta para o risco da fome vir a atingir mais duramente cerca de 8,5 milhões de bocas no mundo em função do desvio de rumo no consumo de produtos originalmente voltados para alimentar os seres humanos. Afirma o documento: ?O uso de trigo, cana-de-açúcar, milho e palma para produzir biocombustíveis ameaça o direito à alimentação adequada de 854 milhões de pessoas com fome no mundo?. E aprofunda a tese: ?Usar terras agrícolas produtivas para produzir alimento que será queimado como biocombustível é um crime contra a humanidade?, vaticinando que: ?A súbita e imprudente corrida para transformar comida em biocombustível é uma receita para o desastre?. O estudo tem 23 páginas e busca dados e análises anteriores, feitas pela ONU, sobre as perspectivas da fome no mundo. Estima-se em 854 milhões o número de pessoas que atualmente passam fome no mundo. E esses seres, hoje já excluídos da sociedade de consumo global, seriam os mais drasticamente afetados pelas conseqüências do redirecionamento de produtos agrícolas para a fabricação de combustível ? pois, desde 1996, essa população de famélicos só tem feito crescer e sua sobrevida, a duras penas, está ligada a programas (caros) de assistência alimentar que tendem a desaparecer com a pressão do mercado globalizado por biocumbustíveis. São argumentos que não podem ser desconsiderados, apesar da euforia empresarial pelas opções de fontes renováveis de geração de energia. A fome, globalizada, tem de ser considerada.