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Rei dos ratos

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| Marcos Davi Melo * Nesta semana tivemos a grata oportunidade de assistir no Teatro Gustavo Leite, apresentado pelo Ballet Estatal da Rússia, o tradicional Quebra-nozes, cuja música é de Piotr Tchaikovsky. Tchaikovsky, embora seja um dos compositores clássicos mais interpretados e populares, não só na Rússia, como em todo o mundo, é considerado um compositor menor por críticos respeitados como Otto Maria Carpeaux, que ainda o descreve como um homem torturado e possuído por perversões sexuais diversas, mostrando que os distúrbios sexuais acometem os notáveis ontem e hoje. Carpeaux ainda relata que Piotr tinha imenso desapreço pelo trabalho de seus colegas de criação, como os iluminados Bach e Beethoven e só admirava realmente Mozart, por quem tinha verdadeira e canina veneração. O Quebra-nozes é apresentado geralmente em fim de ano, pois o Natal serve como seu tema básico e cenário de fundo. Mas, embora fantasia pura, como todo bom ballet, retrata o ser humano em suas grandezas e misérias. Na coreografia original, os seus maiores inimigos são os ratos e os comandando, seu rei, ratão fanfarrão, grande e gordo. No primeiro ato, os detestáveis roedores vencem os homens; mas, no segundo, os ratos, inclusive o seu execrável e barrigudo rei, são totalmente exterminados. Desta vez, o coreógrafo Shamil Teregulov não permitiu que os abomináveis roedores voltassem no segundo ato e nos tirou o prazer de vê-los ser fragorosamente derrotados, o que juntamente com as bailarinas, esguias, belas e frágeis, com suas vestes claras e diáfanas ocupando todo o palco, em gracioso divertissement, sob a música celestialmente suave de Tchaikovsky, são o apogeu deste ballet. Perdoe-me o Carpeaux, mas sempre sou vencido pelas emoções e mal me contenho neste momento magistral do segundo ato. Talvez, Teregulov tenha se sentido inibido com esta situação deplorável dos queijos fraudados por aqui, onde ninguém sabe se está comendo leite pasteurizado, ou somente água oxigenada com soda cáustica e retirando os roedores, achou que assim estava sendo cordial com os anfitriões. Também não deu as caras no encerramento para agradecer aos aplausos da platéia. Mas, é compreensível, com a crise aérea permanente entre nós, ele pode ter ficado perdido em qualquer aeroporto por aí. Ainda bem que na fantasia nós vencemos os ratos, pois no mundo real, não sabemos se os nossos maiores inimigos são os ratos ou os fabricantes de queijo fraudado. (*) É médico e professor da Uncisal.

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