Opinião
As elites
| Fernando Collor * Periodicamente a palavra elite está de volta às manchetes. Em geral, como um termo pejorativo. Apelar para esse conceito como razão e origem de todos os males é uma prática que há muito se generalizou em boa parte do mundo civilizado e sempre serviu de desculpa, como forma simplificadora, para explicar todo e qualquer defeito, seja das sociedades organizadas, seja como justificativa para projetos que não deram certo. No Brasil não havia por que ser diferente. Entretanto, o termo tem uma longa história que remonta ao início do século 20, quando o economista italiano Wilfredo Pareto o utilizou em sua obra Tratado de Sociologia Geral, publicada em 1916. Ele apenas constatava o fenômeno verificado em toda sociedade, em que parte dela exerce o poder e que o autor chamou de ?elite governante?, expressão equivalente a ?classe dirigente?, ?elite política? e ?classe política?. Entretanto, foi outro conterrâneo de Pareto, o sociólogo Gaetano Mosca quem popularizou a expressão com sua Teoria das Elites, no livro Elementos de Ciência Política, editado em 1896. Escreveu ele em síntese: ?... Em todas as sociedades, desde as medianamente desenvolvidas que apenas chegaram aos preâmbulos da civilização, até as mais cultas e fortes, existem duas classes de pessoas: a dos governantes e a dos governados. A primeira, que é sempre menos numerosa, desempenha todas as funções, monopoliza o poder e desfruta das vantagens que a ele vêm unidas. A segunda, mais numerosa, é dirigida e regulada pela primeira, de maneira mais ou menos legal, ou ainda de um modo mais ou menos arbitrário e violento, e recebe dela, ao menos aparentemente, os meios materiais de subsistência e os indispensáveis para a vitalidade do organismo político?. Essa constatação criou uma longa e duradoura polêmica, e terminou influenciando inúmeros outros autores. O debate, porém, foi proveitoso, na medida em que serviu para generalizar a noção de que, em toda e qualquer sociedade, existem sempre grupos que, por suas qualidades pessoais, ou pelos atributos que possui ou conquista, exercem alguma modalidade de influência. Por isso, a política já foi definida como ?o estudo dos que são influentes ou têm influência?. Logo, não têm sentido falarmos e nos referirmos à elite, mas sim às elites, já definidas como ?a parte da sociedade que se apropria da maior parte do que é apropriável?. Artistas, literatos, cientistas, empresários, estadistas, políticos e uma enorme gama de pessoas fazem parte desse grupo que se convencionou chamar de ?elite?. A elite, portanto, não seria mais que uma das componentes das diferentes classes sociais, quando passamos da sociedade feudal, para a sociedade de classes e dessa para a que conhecemos atualmente como as sociedades de massas. Essas classes se caracterizam por diferentes critérios que, originariamente, chamávamos de classe alta, classe média e classe baixa. Era um critério meramente classificatório, hoje superado, mas ainda utilizado segundo padrões econômicos, quando se trata do poder aquisitivo. O que caracteriza as sociedades democráticas, entretanto, não é a sua divisão, mas a sua integração, isto é, a característica de passarmos de uma classe a outra, em razão do conhecimento, da educação, das habilidades pessoais, de aptidões específicas, como as que existem em todas as profissões. Nesse sentido, o termo elite perdeu há muito o seu significado original, para adquirir nova conotação. Falamos em elite esportiva, elite econômica, elite científica, elite intelectual e elite artística, quando queremos designar todos os que, em seus campos de atuação, em suas profissões ou em decorrência de suas habilidades pessoais, se destacam por suas qualidades inatas, adquiridas, ou seus atributos pessoais. Quem negará, por exemplo, ao grande tenor há pouco falecido, Luciano Pavarotti, a condição de pertencer à elite artística, tão admirado por seus dotes em vida e, seguramente, depois de sua morte? Todos os que se destacam, sem distinção de raça, condição ou sexo, são parte da elite. Nada mais do que isso. (*) É senador e ex-presidente da República.