Opinião
A arte de viver
| José Medeiros * A preocupação com a arte do bem viver é bem antiga. Para os gregos da era clássica, viver bem era uma arte que se aprendia, assim como marcenaria, medicina sem caráter científico ou arte da guerra. Eles consideravam que para levar uma existência frutífera, era necessário aprender a evitar os males. Quando não, transformá-los em bem, sob a forma de aprendizado. Valorizavam a amizade como sentimento essencial. Quando se fala em arte de viver o primeiro ambiente que devemos manter saudável ? visando uma vida melhor ? é o interno de cada um de nós: o espírito, a mente. A partir daí, gradativamente, vão-se envolvendo e integrando todos os demais ambientes que nos cercam, criando as condições para uma vida plena. Ninguém desconhece as dificuldades da vida moderna. Tenta-se vencer, a cada dia, as dificuldades das competições a que somos obrigados. Por sua vez, a convivência humana nem sempre é fácil. Num programa radiofônico, perguntou-se quais os fatores indispensáveis da arte de viver. A resposta, considerada a melhor, incluía: boa convivência nos relacionamentos, saber manter boas amizades e buscar um permanente aperfeiçoamento pessoal, que permita alcançar o ser mais e não apenas o ter mais. Na análise do item amizade, foi contado o caso de uma mulher casada, bem casada, que dizia: eu tenho filhos, marido, para que preciso de amigos? Isolou-se de todas as amizades que até então cultivara. Por uma dessas fatalidades que vêm do além, os filhos e o marido morreram num fatídico desastre de automóvel; ela entrou em desespero, amargura, desesperança, solidão, que quase levaram-na à loucura. Como há sempre mãos benfazejas, vizinhos e amigos que haviam sido isolados por ela, reaproximaram-se, na tentativa de ajudá-la a superar as conseqüências do terrível drama. Sem dúvida, a vida é uma construção permanente; amigos verdadeiros são jóias únicas no teatro da vida. Em Olhai os lírios do campo, o escritor Érico Veríssimo demonstra que a solidão das grandes cidades vem acompanhada pela diminuição dos sentimentos de amor e amizade. Eugênio, um médico recém-formado, casou-se, visando alcançar uma boa ascensão social. Não foi feliz; tornou-se uma pessoa amarga e desencantada. O luxo não lhe garantiu uma realização plena. Guimarães Rosa definia a existência com uma frase singular: ?O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, o que ela quer da gente é coragem?. (*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.