Opinião
A voz da consci�ncia
| Sérgio Costa * Iniciava a idade adulta quando li e guardei na memória um dos pensamentos mais realistas do filósofo alemão Karl Marx: ?A existência condiciona a consciência?. Durante a primeira leitura, a inteligência dessa frase passou despercebida. Era apenas mais uma bonita oração no meio de tantas outras. Depois, com mais calma, procurei extrair o pensamento do autor. E fiz isso literalmente. Existência: vida, modo de viver. Condicionar: impor condições, regular. Consciência: voz secreta da alma aprovando ou reprovando nossas ações. Concluí então que uns têm mais outros têm menos percepção da vida e do mundo, a depender dos conhecimentos adquiridos. Se isso é verdade, formar consciências depende de uma série de fatores que nos cercam cotidianamente. Vai depender, por exemplo, da educação que recebemos dos nossos pais e dos ensinamentos colhidos na escola; dos livros que a gente lê e dos costumes aceitos no nosso País. Perguntei-me então se o Estado brasileiro trabalha para formar cidadãos conscientes? E constatei que a nossa família está desagregada; meninos se perdem nas esquinas da vida; os professores, mal remunerados e desmotivados; o projeto pedagógico, medieval; os livros, muito caros e inacessíveis aos mais pobres; e a cultura que se agiganta é a da corrupção política. Essa desorganização alienou e levou o brasileiro a colocar as prioridades de cabeça para baixo. Somos aficionados por carnaval, futebol e cerveja, mas não aprendemos a cobrar dos nossos representantes políticos. Pior: esperamos que eles prestem bons serviços públicos! O jornalista Millôr Fernandes adverte: ?O povo que espera por um salvador não merece ser salvo?. Mas não adianta, falta-nos voz para reclamar e consciência para exigir. Ainda não percebemos que o conformismo sinaliza abandono da soberania popular e abre espaços para os saqueadores do tesouro público. Morre assim o Estado social. Em seu lugar surgem os privilégios e o peso dos tributos; a concentração da renda, a pobreza, o crime e o tráfico de drogas. Apesar das reservas cambiais, o futuro da Nação está comprometido. No lugar de buscar conhecimento, nossa juventude desperdiça suas energias buscando objetivos que não levam a nada: já está aprendendo a fumar maconha e cheirar cocaína; a roubar nos sinais de trânsito e a vender o corpo para sobreviver. É isso, leitor, a ausência de ações governamentais virtuosas está pervertendo a alma e emudecendo a voz da consciência do povo brasileiro. (*) É contador.