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ANA e o Velho Chico

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| Jorge Briseno * O leitor mais apressado pode ser tentado a imaginar que o título acima se refere a um daqueles contos folhetinescos que encontramos na literatura de cordel, onde uma jovem exuberante ? dessas em que desejaríamos morrer mil vezes para viver uma hora apenas junto a ela ? é perseguida, assediada por um velhote voluptuoso, lascivo, movido por um ardor bestial. Sossegue o leitor. Não, não se trata de nada disso. A ANA acima não é nenhuma moça sensual, que nos deixa atônitos, embasbacados. E o Chico não é um fauno incorrigível, enlouquecido de amor no encalço, sem pudor, de uma ninfa encantadora. Explico melhor. A ANA vem a ser a Agência Nacional de Águas, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, que tem como missão regular a utilização das águas de domínio da união visando o seu uso sustentável, evitando o seu desperdício e garantindo-a para a atual e as futuras gerações. Já o Velho Chico nada mais é do que o nosso estimado Rio São Francisco, cujas águas são tão solicitadas para tudo quanto é uso. Águas que a ANA tem por obrigação, como vimos, proteger de utilizações insustentáveis. Pois bem, caríssimo leitor, a ANA, apesar de ser um órgão governamental, encontra-se, a meu ver, em claro confronto com o governo Lula, que insiste na louca transposição das águas do velho Chico. Torno a explicar. A ANA elaborou um excelente trabalho denominado de Atlas Nordeste ? Alternativas de Oferta de Água para as populações do Semi-árido nordestino. O estudo identificou onde temos água no Nordeste e que obras de infra-estrutura hídrica devem ser construídas para abastecer as populações com o menor custo possível. O órgão defende a ampliação da rede de adutoras existente, captando água no Rio São Francisco ou nas grandes barragens já construídas no Nordeste. O estudo da ANA mostra que o drama da seca pode ser reduzido com investimentos da ordem de R$ 3,6 bilhões, atendendo a 1.356 municípios em nove estados e beneficiando 34 milhões de nordestinos. Já a transposição das águas do São Francisco, defendida ardorosamente pelo governo Lula, custará R$ 6,6 bilhões (quase o dobro da proposta da ANA) e atenderá somente a 391 municípios em quatro Estados e a apenas 12 milhões de pessoas. Tenho certeza de que se o Velho Chico tivesse a oportunidade de escolher entre a insustentável proposta de transposição do governo Lula e a sugerida pela ANA, ele se lançaria como um tarado para enlaçar esta última. (*) É engenheiro e diretor de operação da Casal.

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