Opinião
Um livro a ser lido
| Dom Edvaldo G. Amaral * Teologia e exegese, com o método histórico-crítico, se entrelaçam no recente livro do teólogo Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI: Jesus de Nazaré. É excelente livro para todos os que crêem em Cristo. Para todos os que amam Jesus de Nazaré, sejam católicos ou não. No fim da edição brasileira, à página 303, ele explica que ?o livro pressupõe a exegese histórico-crítica e serve-se dos seus conhecimentos, mas quer ao mesmo tempo superar este método no sentido de uma autêntica interpretação teológica?. É, pois, sumamente útil para todo aquele que tenha certa iniciação teológica, sem ser especialista. Sobre o conteúdo da mensagem de Jesus sobre o reino de Deus, o autor começa dizendo que ?o anúncio da soberania de Deus, como toda a mensagem de Jesus, radica no Antigo Testamento, que Ele lê como um todo desde Abraão até a sua hora e o qual conduz diretamente ao próprio Jesus. Parte dos salmos de entronização, que proclamam o reino de Deus (YHWH), é compreendido de modo cósmico-natural e que Israel acolhe no modo da adoração e lembra o Shemá Israel do Deuteronômio. ?A soberania de Deus ? diz ainda ? o divino Ser, Senhor do mundo e da história, transcende o momento, transcende a história no seu todo e vai para além dela, conduz a história para além de si mesma?. O capítulo 4º, do Sermão da Montanha, detém-se numa reflexão profunda e admirável sob todos os aspectos das bem-aventuranças, que Ratzinger diz serem nova versão da Torah, que Jesus nos oferece em diálogo com Moisés e com as tradições de Israel. ?O Sermão da Montanha culmina ? como não poderia ser de outro modo ? no Pai Nosso, com o qual Jesus quer ensinar os discípulos de todos os tempos a rezar, colocá-los diante do rosto de Deus e assim conduzi-los pelo caminho da vida?. No estilo nitidamente germânico, o teólogo Ratzinger alia profundeza da análise à minuciosidade da pesquisa. Veja-se p. ex. o capítulo ?As grandes imagens de S. João? sobre a água, a videira, o vinho e o pão. Sobre este último, ele parte do maná do deserto ao capítulo 6º do evangelho de S. João, com bela referência ao trigo que morre ao ser plantado e renasce na espiga, figura do Cristo morto e ressuscitado. Exemplo marcante das características ratzingerianas de profundidade e minuciosidade nós encontramos na reflexão sobre o pastor. Começa com a figura do pastor do antigo Oriente, no espaço babilônico, para chegar ao mundo atual, com a distinção entre o verdadeiro pastor e o salteador, os ideólogos e os ditadores de hoje. Para esses, os homens são coisas que eles possuem. (*) É arcebispo emérito de Maceió.