Opinião
Quando Iris enlouqueceu
| Ronald Mendonça * ?Quando Ismália enlouqueceu/ Pôs-se na torre a sonhar../ Viu uma lua no céu/ Viu outra lua no mar. No sonho em que se perdeu/ Banhou-se toda em luar...Queria subir ao céu/ Queria descer ao mar... E, no desvario seu/ Na torre pôs-se a cantar.../ Estava perto do céu/ Estava longe do mar... E como um anjo pendeu/ As asas para voar.../ Queria a lua do céu/ Queria a lua do mar.../ As asas que Deus lhe deu/ Ruflaram de par em par.../ Sua alma subiu ao céu/ Seu corpo desceu ao mar...? Este pungente poema denominado de Ismália é da lavra do simbolista mineiro Alphonso Guimarães, um dos grandes nomes da literatura na primeira metade do século passado. Dissecado por especialistas de todos os calibres, a loucura de Ismália que a leva ao suicídio é vista pelo poeta, não obstante o desenlace trágico, com romantismo e leveza. Apesar dos poetas, a loucura tem muito pouco romantismo. Com efeito, mesmo nas formas em que os insanos estariam tomados por estranha euforia, angústia e sofrimento espreitam e afloram a qualquer instante. Os exemplos se sucedem. Protagonista de grotesca cena reproduzida em todas as telinhas do planeta, a ensandecida deputada Iris Varela, lídima representante do povo venezuelano, em incoercível acesso de agitação psicomotora, invadiu um canal de televisão a exigir direito de resposta por supostas ofensas advindas do apresentador do programa. Visivelmente transtornada, entre frases incompreensíveis, de vez em quando soltava o braço no apresentador, um bananão ?Gustavo não sei das contas?, que assimilava os golpes (mais desmoralizantes que potentes) com certo estoicismo, parecendo mais interessado nos altos índices de audiência alavancados pelo escândalo. A despeito de cacos de óculos voarem para tudo que é lado, aparentemente, ninguém estava muito a fim de conter a aloprada. A porrada final, apoteótica, foi com o microfone da empresa. Iris Varela não é a primeira deputada do continente a protagonizar cenas situadas entre o grotesco e o patético. O parlamento brasileiro tem oferecido iguarias parecidas. Ao longo dos tumultuados oito anos de mandato, a combativa ex-senadora alagoana, por exemplo, contracenou em alguns memoráveis arranca-rabos. Ninguém sabe se sob efeito de drogas, o fato é que no dia seguinte a venezuelana pediu desculpas pelos, digamos, destemperos orais e motores. Se a punição pelo ato é improvável, descer da torre com as asas da Ismália, nem pensa (*) É médico e professor da Ufal.