Opinião
Enigma humano
| Gilberto de Macedo * A extrema complexidade do ser humano põe em evidência o seu enigma. Em que pesem os grandes avanços dos conhecimentos nesse assunto, há muito ainda para desvendar. Mesmo porque a cada nova descoberta científica, ocorre um novo mistério, a ser elucidado. Essa sucessão, aliás, faz o progresso das ciências, razão da interminável tarefa da pesquisa científica. Assim, há muito que se revelar para chegar às causas últimas das atividades do organismo humano, às razões do comportamento pessoal, e os motivos das atitudes individuais. Desconhece-se a si mesmo, e tanto mais, aos outros. Por isso que na prática vulgar é tão difícil, senão impossível, julgar alguém de maneira justa. Enganos, pode-se dizer, constituem a regra. É o enigma do ser humano. Enigma que é o desconhecimento, a cortina que envolve a realidade e esconde a verdade. Eis que tal mistério diz respeito a um conjunto de propriedades, cujas manifestações não podem ser deduzidas de algumas de suas partes, separadamente. Trata-se certamente de uma unidade. Daí a incógnita: o que é o homem? O que somos nós? Principalmente, na esfera mental, primitivamente biológica através do cérebro ? originado por herança ? e desenvolvido por processo psicológico, através das experiências de vida ocorridas no meio social, onde está situado. Portanto, uma convergência biológico-social na unidade humana. E ainda, à espera de uma explicação científica, a metamorfose interna do mental em espiritual no curso mais avançado e aperfeiçoado da humanização. A plenitude humana, seria, desse modo, a síntese sublimada desse desenvolvimento bio-cerebral e da internalização psicológico-individual das características da sociedade na formação da personalidade. Como, então, dar-se conta da espiritualização? Como percebê-la, descrevê-la e explicá-la? O enigma estaria, assim, nessa síntese última, além das ciências? Eis o que ensina Hermógenes, o filósofo grego: ?Dize-me o que pedes a Deus e eu te direis quem és.? É o apelo religioso. Daí que diante desse enigma, procurem as pessoas serem simples e humildes. Simples, mas não simplificadas; humildes, mas não humilhadas. Vistas como são, com naturalidade e autenticidade. Inteiras, em seus limites reais. (*) É médico.